Crônicas

Carta ao Senhor Cláudia de Moura Castro

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Com tristeza, raiva, perplexidade e grande indignação li sua matéria na revista Veja.

Faço algumas considerações a respeito dos “grandes” salários do magistério e outras infelizes colocações que o senhor fez no artigo “Professor ganha mal?”

Sim, professor ganha mal. Se levarmos em conta que um professor, por matrícula ou vínculo recebe, em média, R$ 1,300,00 (e a grande maioria, obviamente, não pode permanecer com um único vínculo ou matrícula), teremos o salário mais baixo entre todas as profissões com exigência do Ensino Superior!

Não, não ganhamos R$ 30.000,00 por mês. Não. Não temos aumento de 30%, 40% em um mesmo ano!

Sim, temos salas superlotadas, temos escolas em estado precário sem eletricidade e sem internet! Muitas regiões do país possuem escombros denominados escolas! Paredes substituem quadros e outras nem banheiro em condições de uso!

Não. Não nos aposentamos com poucos mandatos! Não temos auxílio terno e nem passagens aéreas ou auxílio combustível!

Sim, temos violência em muitas escolas! Conflitos expostos a cada minuto em salas que parecem depósito de gente! Pessoas ignoradas pelo poder público e, simplesmente, jogadas num canto! E muitos sentem fome e só sabem o que é almoço quando comem na escola!

Não. Não temos imunidade parlamentar! Não recebemos gratificação por sessão extraordinária ou coisa que o valha!

Sim. Há muitos anos, para que se cumpram os 200 dias letivos, temos inúmeros sábados letivos!

Eu poderia desfiar muitos sins e nãos ao longo deste texto, no entanto, prefiro me ater à questão principal: professor ganha mal e cobra-se muito sem dar a estrutura devida para tanto! O problema não é avaliar o professor, as escolas ou uma rede. O problema é não dar condições para que haja uma avaliação justa!

Há quantas décadas a situação da educação é ruim? Rigorosamente, pouco se faz! Muito se cobra!

Os meus nãos e os meus sins se fazem após vinte anos de trabalho (na escola e em casa). Os meus sins e os meus nãos se constroem com a certeza de que faço o melhor que posso! Os meus nãos e os meus sins comprovam um país que não entende que a educação é que, de fato, fortalece uma nação e tece o futuro!

Senhor Claudio, trabalho muito! Trabalho em três lugares! Divido a minha atenção em espaços bem distintos! Trabalho em casa com correções e leituras! Trabalho em muitos finais de semana para dar conta do volume de material a ser analisado! Trabalho! Certamente, não trabalharei dezoneve anos! Já trabalho muito mais que isso no acumulado!

Absurda e patética as contas feitas pelo senhor no artigo! Muitos, após a aposentadoria, continuam trabalhando justamente porque o salário é ruim! Estranho fenômeno, não?

Todo e qualquer servidor que comprometa a qualidade do serviço público, não prestando um bom serviço, deve, sim, ser penalizado. Justo! Correto! Que o mal profissional (outro curioso fenômeno, ocorre em qualquer área) seja punido e banido sim!

Todavia, não é julgando uma classe inteira, como se todos fossem professorzinhos de merda, que se resolverá o grande problema da educação!

Se os mirabolantes planos e programas, antes de efetiva aplicação, passassem por análise rigorosa e tempo, um pouco do dinheiro investido não seria desperdiçado!

Se governantes e secretarias, de maneira racional e inteligente, dividissem suas responsabilidades e agissem sem vaidade ou politicagem, outro pouco de dinheiro não seria jogado no lixo.

Por fim, se houvesse aplicação do dinheiro na estrutura de verdade, naquilo que realmente há necessidade, mais um pouco do dinheiro não seria gasto inconsequentemente!

Seu texto, senhor Claudio, me atinge como pessoa, como professor, como cidadão! Primeiro, porque trabalho sim! Segundo porque trabalho muito, pois o salário é ruim! Terceiro, porque estou na área há vinte anos! Bastante tempo de sala, de histórias e de luta!

Em outro texto, escrevi sobre a vontade de desistir da educação! Pelos mesmos motivos expostos neste texto!

O problema não está na escola pública, mas o que fazem da escola pública! Gasta-se muito e equivocadamente! Maldosamente?

O problema não está em manter o ensino público! Erro cruel e fatal para a profissão e para o país é acreditar que a privatização do ensino resolverá a situação! Ao contrário, as misérias de um sistema serão mais camufladas, mais perversas até!

Já trabalhei como diretor e sei como funcionam as “terceirizações” de serviço: trabalhador sem segurança, serviço ruim e politicagem!

Termino esta carta (e queria não ter que escrevê-la) com a seguinte pergunta: o senhor viveria com salário de professor?

Acho que não…

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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