Crônicas

Cartas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Acordar com medo de ter dormido demais e, por consequência, não ouvir o carteiro passar. Levantar velozmente, com um sorriso estampado no rosto, ainda mal acordado. Correr até a caixa de correio no gramado. Nada. Voltar ao quarto. Teria sido um sonho?

(…cartas e cartas e cartas e cartas).

Abrir as cortinas, debruçar-se na janela, responder com uma olhadela o canto do passarinho que pousara no peitoril do vizinho. Que lindo dia para se estar em um romance, desses que nos envolve rápida e sorrateiramente por entre os dedos de suas mãos e em silêncio nos leva longe, muito longe, tão longe ao ponto de nos sentirmos perto.

(cartas, cartas,cartas,…).

Cheiro da tinta da caneta esferográfica que mal tocara o papel sem linhas e já corria solta, a desenhar formas curvas num longo colóquio anacrônico para um destinatário longínquo. Folhas e folhas de papel sem linha, rascunhos que não seriam descartados, gravetos envelhecidos abrindo-se para uma nova primavera.

cartas e cartas e cartas e cartas.

Em meio a correios eletrônicos e chats online, arregaçar as mangas, tirar a poeira de uma caneta, um lápis, uma lapiseira antiga e por as mãos sobre páginas palpáveis e brancas, a serem tateadas do outro lado do mundo.

carta, uma.

Em meio a estudos, treinos e tantas outras tarefas, deitar fora um tempo extra a rascunhar histórias embaladas por uma poética tímida, um tanto quanto ansiosa.

cartas, duas.

Em um mundo de ícones online, rapidez e vida ligeira, parafrasear um relógio de areia:

                                                               apreciar o tempo, num “lerdar” das horas a escrever, riscar, reescrever, e trocar de folha… e pensar.

                                                               vivenciar o tempo, indo ao correio, endereçando a carta, esperando que chegue em seu destino.

                                                               sofrer com o tempo, numa angústia entre o chegar, o receber e o reenviar.

O compasso das remessas postais bate em ritmo atroz quando se tem a internet. Mas o mesmo compasso escreve e descreve uma narrativa. E finca raízes em solos profundos. E permanece, em momentos de tanto descartes.

Por hora, um rascunho de tempo. Ainda não lacrei o envelope.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

%d blogueiros gostam disto: