Crônicas

Cheiro de cajá

Adalberto dos Santos

por Adalberto dos Santos*

A safra de cajá está chegando ao fim. Talvez os últimos frutos não durem mais que duas semanas, pelos meus prognósticos. E já que é assim, cabe lembrar os cajás antes que eles façam as malas para voltarem apenas no ano que vem. Este, de bom inverno, foi grato e generoso para os frutinhos dourados da família dos azedos. Portanto, um abraço neles antes que partam e a gratidão por terem trazido tanta alegria aos nossos sentidos.

Também provei os cajás desta safra. No passeio do sítio ao lado da esposa e da minha mãezinha querida, nas bancas de frutas do mercado, no suco de polpa da lanchonete e nos que catei d’algumas árvores de nossa cidade. Estavam ali, frondosas, belas, cheias dos frutinhos, dando à paisagem um tom todo brasileiro. A árvore da cajazeira amarelando em sua beleza tropical é uma imagem de encher olhos. Outra vez fiz a crônica das minhas delícias particulares e revelei a comoção dessa imagem. Realmente, os olhos ficam enternecidos com os pinguinhos amarelos que se misturam à folhagem como se fossem pintados à mão.

A cajazeira é, entre as árvores frutíferas, um buquê de surpresa à época de dar frutos. Como muitas, ela mal apresenta folhas fora da safra. São algumas aqui e ali. Já quando está para vingar, sua copa fica a parecer uma grinalda esverdeada querendo tocar os céus. Em contraste com os brutos espinhos que envolvem seu tronco, os galhos ficam frondosos, cheios de folhas leves, delicadas, as mais verdes e bonitas. Aqui e ali, pingam, cada manhã mais belos, os frutos deliciosos.

Graças a Deus, tivemos muito cajás nos últimos meses. Os dias não andaram nada doces, é certo. Mesmo assim, o azedinho do cajá não aumentou o azedume da existência. Nas horas mais tristes, não dispensei o suco. Provei muitos até sentir os dentes doer da acidez dos frutos.

Algumas vezes, quando não havia onde obtê-los, me contentava com a simples lembrança do cheiro. Era louvá-los naquilo que eles têm de mais extraordinário. Como o caju e a prima-irmã cajarana, o cajá se destaca pelo aroma.

Ah, o cheiro de cajá. Só sabe quem se deixou prender em seu feitiço. Impregna o ar feito mistério. Já vi gente endoidar com a fragrância dos manjares doirados. É inconfundível. Cheiro de cajá é inconfundível. Não pode ser comparado a nada neste mundo. Das raras invenções da natureza. Um primor entre as mil maravilhas do universo. Único, puro, fascinante.

Publicado originalmente em 04/05/2008

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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