Crônicas

Chico Buarque e Federico Fellini? Duas M…!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Supetão. De supetão. Subitamente. Repentinamente. Inesperadamente. Assim ele entrou em minha sala de trabalho. Adentrou, como diria os narradores esportivos. Supetão é uma palavra dos tempos de Dona Chiquinha, a minha mãe, essa que me ensinou a comer flores. Nenhum preconceito com a palavra. Não tenho preconceitos. Mas, assim como gosto da palavra “inefável”, a minha mãe gostava de “supetão”. Pois é. Nesse dia, chegando com aquela sua maneira de sempre chegar, perguntou se “concordava” com o que iria dizer.

A minha maneira, mesmo sendo um consumidor de arte que não se conforma apenas em a arte consumir, mas estudar um pouco sobre essa arte consumida, quase sempre concordo com ele. No entanto, se assim não acontece, discordo dele, acabo achando que ele tem todo o direito de não concordar comigo. A sua visão, como a de nenhum outro, é somente dele. Vocês sabem. Somos impares em tudo. Todos. Plural? Ah, plural somente dentro do peito, pois, afinal, nesse carregamos multidões.

Mas, como assim comecei dizendo, dessa vez ele chegou de supetão apenas para dizer que se Chico Buarque de Holanda não fosse o autor de “Mulheres de Atenas”, aquela do enfadonho “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres…” (palavras dele), esse “monstro sagrado” que todos conhecem e respeitam, fez questão de ressaltar, por ser um monstro sagrado, ninguém conseguiria ouvir essa “obra de arte” sem puxar a descarga.

Música para ele, explica, além da boa letra tem que ser bonita. Pois, não sendo assim, pouco lhe importa o que deseja dizer o compositor. Se “Mulheres de Atenas” tivesse sido composta por Zé da Esquina, apenas um exemplo, porque sabe que um Zé qualquer não saberia contar a história dessas “heroínas”, ninguém iria ouvi-la do começo ao fim. E muitos, sorri, nem mesmo começar a ouvi-la iriam. Um saco! Insuportável!

Tão vendo?! Tem lá as suas razões o meu amigo. As minhas? Tenho-as. E em parte concordo com o seu – dele – pensamento.

Aproveito então a oportunidade para lhe dizer que na semana passada, no meu espaço Plural(humbertodealmeida.com.br), falei que se esse verso de Tom Jobim – “Os seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol” (Lígia) – tivesse sido escrito por Leonel da Vaca, todos dele iriam sorrir. Ah, do Tom Jobim não, do verso. Ele sorriu. E sabendo que eu respeitava – e respeito – o seu ponto de vista sem querer impor o meu, nunca, impor nunca, foi além. Saiu das composições de Chico Buarque e entrou no cinema.

Em sua cidade natal, Bonito de Santa Fé (PB), sertão parahybano, por influência de alguns amigos que posavam de cinéfilos numa terra em que os filmes sobre seca e cangaço eram assistidos ao vivo, decidiu assistir a um filme de arte. Meu Deus, por que fez isso? “Oito e meio”. Foi o filme. Aquele mesmo autobiográfico do Fellini, o Federico. O chato. Pausa. Fellini não, o filme.

Se achou alguma coisa do filme a que assistira? Nada! Ou melhor: achou uma merda! Não estranhem a expressão dele, por favor. Mas, acreditem. Foi assim mesmo que ele falou. E ainda fez questão de repetir: “Uma merda”! O pior filme a que assistiu em toda a sua vida. Nunca viu coisa tão ruim. E, para finalizar, disparou:

– É isso que os entendidos chamam de “cinema de arte”? Bom, se for mesmo, não quero ser um entendido nessa arte! Não quero mesmo! Eu? Sair de minha asa para assistir a uma merda dessa? Ora, meu amigo, de complicada já basta a vida! Cinema para mim é entretenimento! Se isso é o que chamam de arte, tô fora! Que fiquem, pois, os entendidos com a sua arte!

Só não disse mais, porque não quis. Sabia – sabe – o meu amigo que em nenhum momento deixaria de ouvi-lo. Deixarei. Um sujeito que defende o seu ponto de vista com tanta segurança não merece que outros pontos de vista contrários ao seu, isto é, ao dele, impeçam-no de falar o que gosta e, se necessário, puxar a descarga daquilo que não lhe faz bem.

Confesso. Quase aproveitava o momento para lhe falar de alguns filmes de Glauber Rocha que mesmo tendo uma formação diferente da sua (de Glauber Rocha não) nunca consegui deglutir. Nunca conseguirei. E assim, como ele, sinceramente, sempre tive uma vontade da gota serena de puxar a cordinha da descarga no seu – do filme do Glauber – final. Ah, desculpem, desculpem-me, muitas vezes essa vontade me bateu logo no comecinho.

Mas, apesar dessa sua indiferença ante a obra do grande Chico Buarque, esse que para ele não amarra nem as chuteiras do Noel Rosa, acho que em parte ele tem razão. Também puxo a cordinha de descarga para muitos filmes considerados “arte” e composições apelidadas de “eruditas”.

Se puxo? Pergunta-me um dos meus dois leitores. Puxo! Tem mais: puxada a descarga, depois de ouvir o famoso barulhinho final, pois quero ter certeza de que essa “arte” foi para o lugar de onde nunca deveria ter saído, saio na certeza de que vale a pena pagar a Companhia de Água e Esgotos da minha cidade pelo ótimo serviço que me tem prestado!

Até quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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