Crônicas

Chico Buarque no Senado e a Noite dos Mascarados

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Sei não. Sei não. Sei não mesmo! Mas parece que era o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda o motivo de toda aquele “festa”. O Senado todo estava em festa. E cada um que se esforçasse para mostrar todo conhecimento sobre o criador de Geni. Mas foi a agora ex-presidente que, por falta do Eduardo Suplicy, o cantor-mor e desafinado do Senado, quem abriu show citando “Apesar de você”.

Mas foi o compositor Chico Buarque, presente na abertura do evento, como não poderia deixar de ser, o maior homenageado. Não esboçava nenhum sorriso. O ar era de quem estava achando a plateia pequena demais para o show daquela noite. Ora, logo agora que ele pouco a pouco vinha se ausentado dos palcos. Os populares em especial. Senti. Ele deve ter sentido também.

Mesmo antes de tocar o seu violão limitado, Chico era somente homenagens. Mas, afinal, cadê os aplausos? Não ouvia. Os autógrafos? Somente às escondidas. Tudo bem. Mesmo chato nesses casos, ele daria uns dois ou três. E pouco lhe importava saber se muitos dos presentes eram mais fãs do Caetano Veloso e do Roberto Carlos.

Acontece que nessa noite não havia um lado azul e outro encarnado ou vermelho. A cor ou o nome dela era o que menos importava. Estava ali a “Unanimidade nacional”. Mas ninguém se lembrou do Millôr, o primeirão nessa importante descoberta. Tem mais: Millôr não sabia cantar. Embora se por aqui ainda morasse, estaria com Chico, o homenageado. E, se cantasse, com certeza seria um canto debochado.

E a noite dos mascarados seguia em paz. No palco somente uma plateia do contra e outra a favor. Mas não queriam ouvir Chico cantar. Não era o momento. E Chico, pela vez dele, apesar de um dia ter afirmado que as suas letras não se sustentariam sem as melodias, somente modéstia, que não era um poeta e coisa e tal, mas um letrista de música popular estava ali para ser visto e citado. Ah, citar o Chico Buarque era o máximo!

O voto?! Voto?! Que voto? Não estavam ali para isso. Comemoravam. Apenas. E tudo faziam – inclusive citando o homenageado presente – para ser vistos pela televisão como eméritos conhecedores da obra do nosso maior compositor popular ainda vivo. Ora, votar era o menos importante. Afinal, todos sabiam que a votação há muito já fora realizadas, os votos declarados, sem precisar dos nomes no painel luminoso do Senado, espalhado pelas telas coloridas da televisão para uma multidão que mesmo sem o pão estava conformado com o circo. O Senado era isso: um circo com artistas (muitos palhaços) de todo o verde-amarelo.

Nesse momento, mostrando que vivemos numa democracia e que golpe é uma palavra muito feia para significar impeachment, o verde-amarelo estava muito bem representado. Senadores de todos o verde-amarelo! Se Paris foi um dia uma festa para O Hemingway, nesse dia o Senado era uma festa ainda maior. Embora sem o mesmo glamour.

Muitos dos presentes, não ligando para o fato de que o homenageado presente não via ali nenhuma perspectiva de futuro, gostariam mesmo era que aquela festa fosse um mais poema do Chacal, onde precisassem apenas tirar os sapatos com as meias cheias de dinheiro roubado, para dançar pelo resto da vida! Apesar deles, sem a permissão do homenageado, pois esse permanecia calado, mudo, fazendo de conta que nada estava vendo, a festa seguia com uma plateia dividida entre o aplauso e a vaia. As citações? Continuavam.

O homenageando parecia sofrer ao assistir de camarote, pois no palco ainda não estava, as citações de suas letras. Não foi para isso que estava ali. Não foi para isso que escreveu tão belas letras para as suas – dele – canções. Todos péssimos! O olhar era de quem estava assistindo a um show com as suas – dele – músicas cantadas por quem era desafinado e não tinha coração.

Se estava em jogo, mesmo no segundo tempo e as regas não poderia ser mudadas, o tempo pouco importava naquele momento. O impedimento/afastamento/condenação de uma presidente democraticamente eleita por um povo que se “não aprendeu a escovar os dentes,” como um dia dissera aquele rei que pensava com as pernas, fizera valer a sua escolha, era de somenos importância. Alguns nem se lembravam porque estavam ali. Faltariam até, mas, assim mais que repente, souberam o que o ídolo deles estaria presente na festa. E aí? Faltar? Nem pensar!

Os filhos que eram fãs de Supla e nunca ouviram falar em Chico Buarque, mas sabiam que ele fora famoso um dia, pediram que dele eles pegassem um autógrafo. Pegariam. E as suas – deles, deles – mulheres? Ah, ele ainda tem aqueles olhos azuis com que sonharam um dia? Esses mesmos que elas viam enquanto faziam de conta que eram comidas por eles? Meu Deus! Trouxessem uma foto autografada! Muitas, porém, ficaram no “reservadinho” do Senado esperando a oportunidade de ver o ídolo de perto.

Como?! Votar favorável a saída de… De quem mesmo? Ah, deixem pra lá! Mas e dai? Não estavam ali para votar contra isso ou favor daquilo. Chico Buarque! Estavam ali para isso! Dilma? Ah, Dilma? Nada a ver! Afinal, quem manda hoje em suas vidas, apesar dela, são as suas – deles – mulheres que, mesmo nem sabendo quem é ou quem foi o homenageado, eram apaixonadas pelos seus – deles – olhos azuis! Fim de papo. Elas votariam nele. Eles não. Eles o Temer se merecem. Votariam – votaram – no Temer.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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