Crônicas

Cinzas

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

A vida prega-nos peças de tempos em tempos. Um acontecimento muda tudo e nos deixa meio sem rumo, sem saber onde estamos ou com aquela sensação de estarmos pisando em ovos. O pensamento fica ocupado e preenchido e o resto passa a ser mera distração. Iludimo-nos crendo que a recíproca é verdadeira – às vezes, até é – mas a dúvida e a insegurança deixam tudo errático, como se fosse um sonho distante, como se estivéssemos sozinhos e como se o mundo conspirasse contra nós o tempo todo.

Em um momento, estamos felizes, mas, de repente, vem uma tempestade num copo d’água e deixa o dia com tons de cinza, aquele dia que havia começado tão bem. Assim, sem mais nem menos, vemo-nos com os olhos cheios d’água, com vontade de fugir e correr na chuva, como se ela pudesse lavar nossos pecados e levar embora nossas tristezas e frustrações.

O mais incrível é que a insegurança gera mais insegurança. Cremos que está tudo bem e que encontramos um porto seguro, mais eis que o porto seguro não se sente tão seguro assim e passamos a sentir medo porque, de um minuto para o outro, percebemos que não há motivo para nos sentirmos confortáveis e ancorados. Tudo é efêmero, tudo é mutável, tudo é volúvel demais.

Temos então duas opções: desistirmos de tudo e morrermos um pouco mais com isso ou seguirmos acreditando, lutando contra as armadilhas e sonhando cada vez mais. Sempre procuro escolher a segunda, afinal, sonhar é o primeiro passo para tornar algo real. Entretanto, nem sempre conseguimos sonhar porque queremos que sonhem conosco, mas aí, são novos medos e inseguranças a se agruparem.

Queremos o que não temos, mas quando conseguimos, mesmo que por acaso, não acreditamos que somos merecedores e fugimos por puro medo. Isto é insano, mesmo que humano. Temos uma vida tão curta para nos deixarmos levar pelo medo. Ora, medo, todos temos. Coragem não significa ausência de medo, mas a certeza de que podemos enfrentá-lo e o vencer, mesmo que eventualmente percamos.

Só podemos chegar a uma conclusão: se queremos que valha a pena, se queremos gritar ao mundo que vencemos, se queremos realmente conseguir, ter e sentir, é obrigatório que acreditemos e perseveremos em nossos sonhos e desejos. Cabe-nos avaliar e decidir se o risco de perder e de sofrer é grande o suficiente para desistirmos porque, se assim for, nosso sonho não era lá algo que desejássemos tanto assim. Se queremos algo realmente, se desejamos com verdadeiro afinco, não há risco ou sofrimento que diminua seu valor.

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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