Crônicas

Como enganar um otário

Tarcísio Pereira
Escrito por Tarcísio Pereira

Primeiro ele chegou, cumprimentou bastante sorridente e, vendo a indiferença, perguntou:

– Não está me reconhecendo?

– Confesso que não, me desculpe.

Tentou ser lembrado – falando de lugares, pessoas e episódios. Continuei não lembrando dele. Mas, como já conheço a minha distração, assumi a convicção de que ele estava certo. De modo que menti:

– Ah, pois não. Agora me lembro de você.

Ele sorriu satisfeito, com um largo sorriso. De repente abaixou a cabeça e, estranhamente, começou a chorar.

– Que foi?

Disse que estava vindo da Assembléia Legislativa, percorrera todos os gabinetes e não conseguira a ajuda de nenhum deputado. Disse que tinha ido ao Palácio da Redenção, depois ao Tribunal de Justiça e, também, não conseguira um único assessor que lhe desse uns trocados.

– Aí eu me lembrei de você e vim aqui no Theatro Santa Roza. Pelo amor de Deus, eu preciso de 50 Reais agora. É urgente, pois a minha mãe faleceu às 5 da manhã e será sepultada às 5 da tarde. Eu só tenho uma hora para pegar o ônibus que sai para Cajazeiras, onde ela está sendo velada.

De coração na mão, e ao mesmo tempo desconfiado, pedi que me explicasse com calma.

– Se eu conseguir esse dinheiro, e o ônibus não atrasar, eu vou chegar na hora do enterro sair.

Eram tantas lágrimas, tanto poder de persuasão que tive pena. Tirei a carteira do bolso, onde havia um saldo de 70 Reais. Dei-lhe os 50 de que precisava para comprar a passagem. Em seguida, estirei-lhe outra cédula de 10 Reais:

– Isto aqui é para que você coma alguma coisa no caminho.

Ele ajoelhou-se aos meus pés, beijou-me as mãos e disse:

– Tenha certeza de que eu vou voltar para lhe pagar isso.

E, de fato, uma semana depois, retornou me trazendo um… “presente”, segundo o seu raciocínio.

– Vim lhe agradecer pelo que fez por mim. Consegui chegar a tempo de sepultar minha mãe. Agora veja como são as coisas: perdi minha mãe, mas dois dias depois nasceu o meu filho. Como gratidão, vim lhe pedir para ser o padrinho de batismo do meu filho.

Tomei um susto. Padrinho de batismo, eu?! Detestei a idéia e ainda fiz de tudo para me safar, mas ele não desistiu: “Você não vai me fazer essa desfeita”. Suspirei:

– Tudo bem, e quem vai ser a madrinha?

– Sua esposa.

– Não tenho esposa.

Ele disse, enfim, que a madrinha poderia ser a sua própria irmã. Perguntei se a sua irmã era casada e ele disse que sim – aliás muito bem casada. “Neste caso”, eu disse, “não vou aceitar. Será constrangedor para mim e o marido dela”. Ele disse, enfim, que eu escolhesse qualquer pessoa – uma amiga, uma irmã, quem quisesse. Pedi que ele escolhesse a madrinha, desde que não fosse casada.

Voltou no dia seguinte com esta decisão:

– Vai ser mesmo a minha irmã. Falei com o marido dela e ele não se importa. Está todo mundo muito grato pelo que você fez por mim.

Fazer o quê? Respondi que ele fizesse o que bem entendesse. Então marcou a data para 27 de novembro, um sábado. Antes de sair, porém, veio com esta:

– Estive na igreja hoje e me disseram que eu tinha que pagar 50 Reais pelos banhos. E eu tenho que pagar até amanhã. Você sabe que, pela tradição, quem paga os banhos são os padrinhos. Mas sei que você é uma pessoa muito ocupada e não precisa comparecer aos banhos; o padre disse que a minha irmã pode ir sozinha. Eu só preciso dos 25 Reais, pois a outra parte vai ser paga pela madrinha.

Confesso que não gostei – mas, afinal… quem mandou aceitar o convite? Meti a mão na carteira e passei-lhe os 25 Reais. Ele foi embora dizendo que me ligaria marcando tudo. Levou o número do meu telefone, mas não peguei o dele.

No dia seguinte, a minha irmã telefona de Pombal dizendo que, no dia 27 de novembro, sábado à noite, seriam comemoradas as bodas de ouro dos nossos pais. Entrei em desespero:

– Pelo amor de Deus, arranje outra data. Já assumi o compromisso de ser padrinho de um batizado nessa mesma data.

Minha irmã informou que não havia outra data na paróquia de Pombal. Como não via outra saída, decidi que os meus pais tinham prioridade. Finalmente, eram 50 anos de casamento, e eu não poderia faltar. O jeito era esperar que o rapaz aparecesse para que remarcássemos o batizado do seu filho. O tempo foi passando e ele não apareceu. Sequer um telefonema. Às vésperas da viagem, já estava com um peso na consciência, pensando na desfeita que estava fazendo com ele. Ainda esperei o dia inteiro e nada de um telefonema. “Vão me esperar amanhã na igreja, e eu não vou poder aparecer”, pensava.

Viajei no sábado cedo. Ainda deixei recado com várias pessoas para, caso ele aparecesse, aceitasse as minhas mil desculpas.

E foram lindas aquelas bodas de ouro! E que festa, que jantar, quanta emoção! Mas aqui e ali pensava: “Os pais do bebê devem estar me odiando, e essa criança vai saber a sua vida inteira que o seu padrinho não compareceu ao batizado”.

Hoje estou convencido que essa criança nunca vai pensar isso, pois é provável que ela nunca existiu assim como aquela mãe que jamais faleceu… Como aquele homem não me retornou, contento-me em saber que perdi apenas 85 Reais. O restante da mágoa é por um sentimento de culpa totalmente inútil. Olho para trás e, sorrindo, fico imaginando sobre como é fácil enganar um otário.

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Sobre o Autor

Tarcísio Pereira

Tarcísio Pereira

Jornalista e Publicitário, Escritor e Teatrólogo, atua nas áreas de comunicação e cultura.

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