Crônicas

Como me tornei sultão (com meu próprio harém)

Conhecem Vocês algum Harém Virtual?

Bem, existe pelo menos um. E a “vítima”, isto é, o Sultão, não é ninguém, não – é o degas aqui! Juro!

Mas, antes que se estabeleça algum mal-entendido, é bom que a gente explique esse negócio direitinho.

Há alguns meses, percorrendo a Lista de Amigos em meu Perfil do Orkut, a perspicaz amiga e professora mineira Milu Duarte fez uma constatação e me indagou: “Puxa, 99,99% de seus orkutais ‘amigos’ não são amigos, mas AMIGAS! Seu Perfil é um autêntico Harém Virtual!”…

VÍRUS URTICARIAS DRUZZI
Devia ter-me mantido na moita. Mas inventei de levar a coisa pro lado do bom-humor: “Ah, Milu, é que sofro de rara doença, provocada pelo vírus ‘Urticarias druzzi’. Consiste em que pego urticária toda vez que vejo foto de homem na Net. O médico até me receitou, para compensar contatos profissionais diários com representantes do sexo masculino, que despairecesse um pouco, montando um Perfil de Orkut exclusiva ou majoritariamente formado por mulheres. Uma espécie de colírio para a vista e para a alma. E Você, Milu, acaba de descobrir meu até agora tão bem guardado segredo!”

Ainda em tom de pilhéria, ela me perguntou se não pensava em “montar” um harém virtual. Ora, leitora! Ora, leitor! Que homem não pensou nisto, pelo menos uma vez? Quem não foi além, ainda, pensando em instalar um harém de verdade, na vida real, com todas aquelas, digamos, comodidades vistas nos filmes e nos best-sellers?!

Mas fui sincero com a Milu: “Não, Milu. Não teria coragem de montar algo assim, especialmente na Internet, onde trabalho quase o dia inteiro. Além do mais, pense num sujeito encabulado e terá pensado em mim… Com que cara iria eu aparecer numa… numa coisa dessas?!”

“O HARÉM DO DRUZZ”
Aí, a mineira — entre alguns “uais”, “ués”, “xuxus” e “dedéus” — me consultou, fingindo nada querer, como ficaria em árabe a frase “o Harém do Druzz”. Pensei um pouco (sou realmente estudante de árabe, “minha” 19ª. língua!) e chutei: “al-Hariym ad-Druzzar”.

— Pode escrever isto pra mim, no Word, e me mandar por e-mail? É só curiosidade, sabe? Sou descendente de árabe e minha pupila de russo, a Tábata Lima, já fala árabe e está agora estudando a língua a fundo…

– Claro, escrevo aqui no Arabic Editor e lhe mando agora mesmo.

Como de fato: mandei. Milu despediu-se. Mas, em silêncio, matreiramente, sem que eu nem desconfiasse, organizou tudo. E, um belo dia, semanas atrás, me passou um URL: www.orkut.com/Community.aspx?cmm=14051255 .

Juro também que fui lá inocentemente: já esquecera completamente toda aquela conversa. E qual não foi minha surpresa ao deparar minha própria foto, em montagem, servindo de abertura a novel Perfil de Orkut justamente chamado AL-HARIYM AD-DRUZZAR.

A desgraça estava feita – mesmo porque já havia algumas odaliscas inscritas no rol de amigos/amigas. E como recusar essa, como direi, “homenagem” da intelectual de Belô?! Que, afinal de contas, é a dona, a Odalisca-Mor (cargo que depois lhe dei!) e mantenedora do tal harém on line. Quanto a mim, não sou nada; nada sou: se antes era apenas um pobre marquês desempregado, sou agora apenas o Sultão!

A ABOLIÇÃO DOS EUNUCOS…
O texto do Perfil dizia, como ainda diz:

“Comunidade que abriga o primeiro HARÉM VIRTUAL da História, AL-HARIYM AD-DRUZZAR [] – Dela podem participar todas as odaliscas deste enorme seraglio on line, bem como os amigos do Nobre(ga) Sultão. Harém de mentirinha, é porém o mais moderno e democrático do Mundo, vasto Mundo. Basta dizer que o Sultão aboliu, nos domínios de seu Sultanato, a execranda figura do eunuco — de modo que homens podem participar de el-Hariym sem maiores encucações.

“O idioma oficial do Sultanato da Druzzlândia é qualquer uma das 20 línguas que o Sultão pode ler. E, aqui, os objetivos principais são a troca de idéias, a Cultura, o Bom Humor, a Democracia, sem QUAISQUER discriminações. Nosso amado Sultão é, ele mesmo, homem culto, viajado, eclético — e até agora não se negou a discutir NENHUM tema. Às vezes, até o faz em versins de cordel… Enfim, o escopo final é o RISO sadio, amigável, liberador. [MILU DUARTE, ODALISCA-MOR]”.

COVER DE RODOLFO VALENTINO…
O que o leitor faria, em meu lugar? Não há muito a fazer, não é mesmo — a não ser ir em frente com a brincadeira. A montagem — em que apareço como um sultão algo carrancudo e, ao que dizem, com apreciável narigão, comme il fault — foi obra de minha atual mulher. Muito boa em fazer montagens em seu próprio saite [www.flogao.com.br/veronike], ela downloadou uma foto do antigo ator hollywoodiano Rodolfo Valentino (este, sim, um sujeito bonitão) e pespegou minha carantonha naquelas roupagens orientais da fotenha.

Embaixo da foto do “sultão”, viam-se quatro pequenos thumbnails de atrizes famosas. Para evitar ciumadas, a DruzzPress (agência oficial de notícias do Sultanato da Druzzlândia) apressou-se em divulgar que aquilo eram fotos de EX-odaliscas, desligadas do sultanesco harém por estarem, ehr, “fazendo corpo mole em serviço”. Mesmo assim, ainda houve muita discussão em torno da figura patriarcal do Sultão, com elogios rasgados e acerbas críticas.

HARÉM DEMOCRÁTICO & MODERNO
Mas o Sultão não se deixou intimidar com as reclamações nem se embair com as homenagens. Afinal, como proclamou em alto e bom som, trata-se de um novo tipo de harém — um harém moderno e democrático, sem qualquer desrespeito aos direitos humanos das odaliscas e súditos. Tudo isto está minuciosamente explicado nos textos que choveram sobre a própria Comunidade — de modo que já existe muita coisa, lá, para ser lida com real proveito pelos gozadores de plantão. Podem-se ali ver, por exemplo:

• os decretos do Sultão;
• as nomeações de súditos para altos cargos, inclusive o de embaixador plenipotenciário junto ao Reino de el-Farans (França);
• aulas de árabe, russo e outras línguas dadas pelo Sultão em pessoa;
• o Hino Nacional da Druzzlândia, mui adequadamente intitulado al-Hubbu [= “O Amor”];
• o Hino Deus salve o czar adaptado para Allah salve o Druzzar;
• a Constituição Democrática & Popular que assegura igualdade total, democracia, rigoroso respeito a todas as religiões e outros direitos fundamentais;
• disputas versificadas, em francês e português, entre o Sultão e outros ulemás ou sábios de plantão;
• poemas escritos nas mais abstrusas línguas, vez por outra traduzidos sob a forma de cordel nordestino (?!);
• criação de neologismos;
• concorridas audiências concedidas pelo Sultão a suas “queridas odaliscas e amados súditos”;
• dúvidas as mais estranhas que súditos e odaliscas tentam tirar junto à Excelsa Figura Real;
• uma odalisca que não passa de autêntica Alma Penada (!);
• as referências à Sultana (a esposa principal do soberano), às sultaninhas (as filhas deles) e aos sultõezinhos (os inumeráveis filhos, reais ou fictícios, incluindo os herdeiros presuntivos do Trono de Ouro);
• um SAC – Serviço de Atendimento ao Consumidor;
• os Anais Históricos do Harém do Druzz e do Sultanato da Druzzlândia;
• ciumeiras e brigas entre odaliscas;
• dança do ventre, dança dos sete véus e outras coreografias (a odalisca Alma enada quer dançar nua!);
• outros símbolos virtuais do Harém;
• a moeda e o papel-moeda do Sultanato, o druzzim;
• um salário-mínimo que não é mínimo coisa nenhuma (cada assalariado diz quanto quer ganhar!);
• os astronômicos salários e os luxuosíssimos aposentos das odaliscas;
• o aproveitamento de chacretes como bailarinas do serralho virtual;
• músicas de altíssima qualidade para baixar;
• a Grã-Chancelaria Sultânica da Sublime Porta do Harém/Sultanato e sua correspondência;
• comentários sobre bajuladores palacianos;
• uma odalisca representada por três lulus e por isto mesmo apelidada pelo Sultão de Santíssima Tricachorrada;
• y muchas cositas más.

LIBERTAÇÃO… PELO HARÉM!
Pela amostra, pode-se presumir o que ainda vem pela frente… Pode apostar alto tratar-se de saite de bom humor e Cultura. E o Sultão (quer dizer, EU) jura que a-do-ra todas as suas odaliscas, concubinas, esposas, preferidas, mulheres presenteadas por outros sultões e paxás — e dará sua própria vida, de cimitarra em punho, para evitar o menor desrespeito a suas pupilas. Todos os textos, como convém a Sua Eminência Eminentíssima, primam por elevado teor, evitando-se brincadeiras pesadas ou piadas de mau-gosto.

Registrem-se também emocionantes depoimentos de odaliscas que, após inúmeras peripécias na vida, só foram encontrar sua libertação (!) ao ingressarem em al-Hariym ad-Druzzar.

— Como este D é uma letra solar, em árabe, o artigo muda de al- para ad-” — explica modestamente Sua Sultanescência, que lê realmente numas vinte línguas e tem outro elevado objetivo em mente, para os próximos meses: implantar uma Sultânica Mádraça (uma escola, um centro de estudos) e contar algo da História (real) dos OUTROS haréns, como os do Império Turco-Otomano — nada democráticos, em comparação com ESTE!…

Afinal, “harém também é Cultura”, como diz um de seus inúmeros dísticos levados a sério, como estoutro: “Nenhum Poder, muito Saber e muito Sabor”, inspirado em Roland Barthes…

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Sobre o Autor

Evandro Nóbrega

Evandro Nóbrega

Evandro da Nóbrega é escritor, jornalista e editor técnico-literário. Autor de vários livros, pertence à UFPB e ao IHGP. E, malgré lui, tornou o Sultão-Patrono de al-Hariym ad-Druzzar.

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