Crônicas

Criança diz cada uma!

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Disso já sabemos todos nós, e Pedro Bloch, um misto de médico, jornalista e dramaturgo que publicou no século passado um delicioso livro com o título acima. Na verdade, mesmo não tendo a coleção de histórias do Bloch, toda gente conhece algum caso divertido protagonizado por uma criança próxima. O raciocínio infantil, lógico e direto, acaba por criar situações que só a inocência possibilita.

 

O menino, de uns três anos, disse que queria fazer xixi. Como estavam a uns cinquenta metros de casa o pai perguntou:

– Dá para você aguentar?

O menino respondeu:

– Eu aguento, mas o xixi não.

Precisou ser ali mesmo…

 

Houve também aquele cuja madrinha ia viajar. Quando ela lhe perguntou se queria alguma coisa, ele respondeu:

– Me traz uma barata.

– Barata?

– De mentira, pode ser de plástico.

– E para que você quer uma barata de plástico?

– Pra te dar um susto.

A madrinha, se derretendo por dentro com tanta ingenuidade, prometeu trazer o bicho. Trouxe e entregou. Passado um minuto, deparou-se com a barata de plástico no chão e levou o maior susto! Fingiu quase tanto quanto se fosse uma barata de verdade. O travesso se acabou de rir. Tentou repetir a brincadeira, mas a madrinha decidiu que era demais e alegou que agora já sabia que a barata era de mentira. O menino achou a justificativa plausível e não insistiu: foi procurar outra vítima.

 

Conheço um que não gosta de chocolate. O irmão mais velho, implicante, disse-lhe que não era educado recusar chocolate quando lhe ofereciam. Ele não se apertou:

– Não faz mal. Eu recuso e digo que sou diabético.

Vá saber onde aquele pingo de gente ouviu falar de diabetes, associou a chocolate e gravou a informação. Adultos muitas vezes conversam entre si sem dar bola para os pequenos, achando que eles não se interessam pelo assunto. Diabetes, imaginem…

 

Por falar em pingo de gente, o pimpolho achou divertido jogar no chão as almofadas do sofá. Brincou um pouco e deixou tudo espalhado. Os pais disseram-lhe que tinha de recolocar as almofadas de volta ao lugar. Fez cara de pobrezinho:

-Tô flaquinho, não conxigo

Não adiantou: o flaquinho teve mesmo que dar um jeito na bagunça.

 

O garoto de uns dez anos estava andando no shopping e falando consigo mesmo. A senhora passou e escutou a exclamação exultante:

-Ah, como eu sou sortudo!!

Ficou curiosa, diminui o passo e apurou o ouvido para entender o motivo de tamanha alegria. Ouviu a continuação:

-Achei uma moeda!!

Ela pensou em como certas pessoas possuem tantas coisas, mas nunca foram capazes de sentir tanta felicidade.

 

A avó gostava de ver novela e quando os netos estavam por lá a algazarra impedia. Uma noite de capítulo importante, resolveu trancar-se no quarto para poder assistir à televisão sossegada. O mais novinho não teve dúvida: bateu educadamente à porta e fazendo uma vozinha disfarçada, disse, imitando a própria mãe:

-Abre, mamãe, é a Neuza.

A avó não resistiu: rindo, acabou abrindo a porta para o ardiloso.

 

Outra avó reparou que o neto se isolara num canto. Foi lá puxar assunto, e descobrir o que havia acontecido. O garoto, amuado, não estava para conversas. Com algum jeito, a avó conseguiu saber o motivo do aborrecimento.

– O seu marido tomou o meu sorvete!

O coitado do avô, inadvertidamente, tinha apanhado a taça de sorvete que o neto por um instante deixara em cima da mesa. Uma nova taça bem cheia resolveu o problema.

 

O menino era louco por sorvete e, para evitar maiores consequências, tornava-se necessário controlar um pouco essa gula. Certa vez, na casa de uma tia, depois de repetir o sorvete duas vezes, escutou:

– Este é o último, viu?

Não se queixou, não disse nada, comeu o tal último sorvete, esperou um pouco e foi para junto da mãe. Falou baixinho:

– Mãe, quero ir na casa da tia Márcia.

A mãe, entretida na conversa, não deu importância. Ele insistiu duas ou três vezes, sempre baixinho:

– Mãe, quero ir na casa da tia Márcia.

Já era tarde da noite, a mãe acabou interrompendo a conversa e interpelando o filho:

– Garoto, o que você quer ir fazer na casa da tia Márcia a esta hora?

– Tomar sorvete…

Crianças podem ser de uma sinceridade inconveniente. A família hospedou parentes de outra cidade e o menino foi desalojado do quarto para dar lugar às visitas. Dois ou três dias depois não se conteve:

– Quando é que vocês vão embora? Dizem que vieram só fazer uma visita mas ficaram para dormir e estou achando que não vão embora nunca mais. Vocês não têm casa não?

Pano rápido!

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

%d blogueiros gostam disto: