Crônicas

Crônica da manhã de terça-feira, sem feira e com céu nublado, à manhã de Domingo, dia ensolarado no coração da cronista

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Sente-se o cheiro de café. A tinta corre fresca e moleca por sobre o papel há poucos segundos em branco. Um vento forte sopra fagulhas de esperança através da janela escancarada de uma casa ensolarada… Quando a saudade aperta, as recordações são o aroma da felicidade em nossos sonhos.

Tudo começou com o vento que seguia meus passos ao deixar à Igreja. Na esquina onde se encontra o portão de acesso ao boulevard com a calçada comum, caem pequenas folhagens sobre mim. Nada é mais maravilhoso do que um vento de flores em nosso caminho. O prenuncio da chuva, o alerta para ficar atento às coisas ao nosso redor… Nessa garoa de pétalas pela rua, deparo-me com a manhã em que o mar perde sua linha do horizonte e o Palace todo em branco parece ser a extensão do céu. Sua fachada clara harmoniza-se – quase em um corpo único – com a brancura que paira sobre as areias da princesinha do Rio. Um espreguiçar-se sem pressa, como ondas intermináveis de um mar não bravio, toma conta das varandas do luxuoso hotel: todos os quartos estão ocupados pelas camareiras: são por ora as protagonistas que alisam as camas macias e deitam taças de cristais sobre a mesa de cabeceira, pois o mar as aguarda para desejar bom dia. Moradores passeiam com seus cães e curiosa ou propositalmente as vestimentas imitam a cor dos pelos, das coleiras… um estrangeiro, ao aqui caminhar por primeira vez, se conseguisse desvencilhar seu olhar da dança hipnótica do oceano, sentiria cócegas em seus lábios e os abriria em um contagiante sorriso, ao constatar o óbvio: o cão é a cara do dono. Os cariocas são a cara do Rio. As folhas secas dão maior destaque ao calçadão tricolor de pedra portuguesa. Um vento assobia nos ouvidos dos transeuntes. O Rio, pouco a pouco, é cada vez mais carioca. Podemos dizer que o dono, pouco a pouco, se aparenta ao seu cachorro. E as descrições de outono são os primeiros gritos da primavera.

As flores brotam em cada esquina, no meio das quadras e nas faixas de pedestres. Nascem margaridas e rosas nas soleiras das casas e no banco do carona de cada motorista. É primavera, a estação das flores, dos amores, do riso leve e do início do horário de verão. No Rio, o verão corre solto por entre as estações de todo o ano, como um ex-presidiário, sem pudores com a sua liberdade.

Terça-feira sem feira e com céu nublado, prenúncio do domingo ensolarado de praia e brisa. Hoje para o bem de todos nós é o dia novo em cada semana. Domingo. O dia da preguiça e da preparação.

É chegada a estação do recomeço, de vida nova. É chegada a hora de as crônicas serem, novamente, cariocas.

Bem-vindo de volta, caro leitor! Uma excelente primavera – e domingo – para você e seus amores…

Chama-se “Crônica da manhã de terça-feira, sem feira e com céu nublado, à manhã de Domingo, dia ensolarado no coração da cronista” a crônica que acabaram de ler.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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