Crônicas

Cupins

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Amo o calor da minha terra. E a umidade, que apesar de desagradável, ajuda a manter a pele hidratada, o que, na medida do possível, acaba por se traduzir num aspecto mais jovem.

O problema é que os cupins também adoram essa combinação, apesar de terem razões completamente diferentes das minhas. Lutar contra eles faz parte do cotidiano de muitos cariocas e a vigilância precisa ser, no mínimo, eterna. Qualquer descuido e pronto: lá estão os bichinhos se refestelando.

Dizem que cupim “clássico” é o que ataca a madeira, mas eu e o povo chamamos genericamente de cupim a diversos tipos de bichinhos vorazes de comportamento semelhante. Relevem: a nomenclatura científica dessas criaturas não me desperta nenhum interesse. Meu único desejo é mantê-las à distância e, caso isso não seja possível, exterminá-las sem dó nem piedade.

O cardápio desses animais é variado. Acredito que comecem pelo mais apetitoso (do ponto de vista deles, é claro). Se não é madeira, pode ser papel, tecido, concreto. Concreto? Pois é: já vi sair resíduos pretos pelo rejunte dos azulejos imaculadamente brancos de uma cozinha. Dizem que não se alimentam do concreto, apenas o trituram para abrir caminho, mas de algum material de construção entremeado nas paredes. Só não explicam porque os bichos às vezes demoram vinte ou trinta anos após a conclusão da obra para aparecer. Na cozinha que vi fez-se necessário quebrar todos os azulejos para combater a praga.

Atenta aos vorazes animais, quando me mudei para a casa em que moro atualmente, fiz questão de que no chão não houvesse uma única tábua. Quanto às portas, ao mobiliário e outras peças de madeira, tratei de imunizá-las na medida do possível. Há tanto cupim nesta região que eu, como várias pessoas que conheço, tenho um prestador de serviços fiel para ajudar nessa tarefa.

Apesar disso, não posso me descuidar. Há pouco tempo substituí as bandeiras da porta de entrada porque estavam infestadas. Ano passado o chassis de um quadro a óleo que me pertence há mais de trinta anos teve o mesmo destino, e por pouco não roeram a tela.

Recentemente descobri um rombo de tamanho considerável no tapete da sala: um rasgo de quase quinze centímetros de comprimento, coberto por uma espécie de areia pegajosa. Aparentava tratar-se de um resto de comida que algum descuidado tivesse pisado e isso, aliado ao fato do tapete ser muito antigo, poderia ter aberto a fenda.

No chão da sala, há uma tomada que é encoberta pelo tapete. Quanto o retirei para entender melhor o que estava acontecendo, vi que o rombo coincidia com a posição da tomada, o que reforçou a hipótese de que o rasgo tinha sido causado por acidente. Limpei a tomada, suja da mesma areia pegajosa, e tratei de providenciar o conserto do tapete.

No dia seguinte, observando que os supostos restos de comida ainda estavam visíveis na borda da tomada, resolvi retirar os parafusos que a fixavam ao chão para fazer uma limpeza melhor. Céus! O buraco onde ela se alojava estava cheio de resíduos semelhantes. Cupins! Mas como? A tomada é embutida no chão, instalada dentro de uma caixa de plástico, em volta há cimento e o piso é de cerâmica!

Chamado às pressas, meu fiel descupinizador diagnosticou: tenho cupins de concreto morando debaixo da cerâmica do chão da sala, os quais, através de uma pequena fresta entre o piso e a fixação da tomada, sentiram o aroma do meu delicioso tapete.

Acreditei, assim como acredito na maioria das histórias inacreditáveis que ele já me contou sobre cupins. Gente que perdeu dinheiro em cofre de ferro no qual os cupins deram um jeito de penetrar. Gente que descobriu focos a vários metros de distância de onde os cupins se banqueteavam. Gente que viajou e quando voltou tinha a casa rendada. Gente cujas estantes desabaram. Gente que perdeu bibliotecas. Gente que resolveu ignorar o problema e acabou amargando um prejuízo maior.

Não é só para me consolar que ele conta essas coisas, é também para me assustar, já que o preço que cobra depende em parte do pavor que detectar na cara do cliente. Mas é um cara honesto e nós sempre chegamos a um acordo.

Ele já trabalhava para mim na casa que morei anteriormente e certa feita detectei cupins em um armário que ficava embutido num vão do corredor. O rapaz perfurou toda a madeira e injetou o veneno adequado, mas dois ou três dias depois, ao passar por ali, ouvi o que parecia um nhec-nhec que não estava lá antes ou ao qual eu não havia prestado atenção. Liguei para ele e perguntei se cupim fazia barulho. Respondeu que sim e chegou à minha casa em menos de meia hora. Apurou o ouvido, confirmou o nhec-nhec, e explicou que provavelmente o vão entre o forro do armário e a parede era maior do que o normal e que para atingir a parede era preciso destruir o armário. O armário iria se perder de um jeito ou de outro, melhor resolver de vez.

Quando, na primeira martelada, se pode ver o que estava acontecendo, era inacreditável. Apesar de todo o veneno, e não tinha sido pouco, havia uma colônia de cupins em franca atividade. Milhares, milhões deles, nhec-nhec, nhec-nhec. As madeiras que sustentavam o armário estavam carcomidas, mais cedo ou mais tarde tudo viria abaixo.

Esta semana o meu combatente de pragas fez o que achou pertinente diz que não vou precisar quebrar o chão da sala. Pelo menos, não já… Porque quando o assunto é cupim não dá para ter certeza de nada.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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