Crônicas

De Rio a Rio

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Se me perguntassem há duas semanas em quais estados do país eu já havia estado, responderia: Rio, Bahia e São Paulo (se puder levar em consideração meia hora sentada no aeroporto…).

Hoje, com um sorriso imenso estampado no rosto – pálido pela falta de tempo para tomar um banho de sol -, digo ao leitor que conheço São Paulo por paradas em uma série de lojas de uma certa rede alimentícia e passagens de ônibus pela Marginal Pinheiros, dentre outras regiões cortadas pela BR 101. Atravessei o Paraná, mas era noite (e muito fria, por sinal); também de Santa Catarina só conheço a lua embaçada pelos grandes vidros do veículo de passeio. Do Rio Grande do Sul, a serra gaúcha me é um tanto quanto conhecida, agora; estive uma semana inteira alojada numa faculdade particular na cidade de Caxias do Sul, em função de um encontro estudantil. Ah, que maravilha de cidade. Tranquila, com resquícios da colonização italiana até no “bah” de seu sotaque, vinhos, queijos, Forqueta em sua festa do vinho e gaúchos amigos fazendo churrasco de pinha, trocadores xenofóbicos, Rua Pinheiro Machado, Julio de Castilhos, Sinimbu, 18 do Forte, Dr. Montaury, Praça Dante Alighieri, roteiros turísticos, poemas “pichados” nos muros, ônibus que aumentam de tamanho, pontos de táxis com televisões, táxis com proteção contra os clientes, arquitetura encantadora, chimarrão, Tampico, clima perfeito (média de 16º C), fotos, muitas fotos…

A região, porém, não se resumiu, ao longo desses 7 dias, na cidade da Festa da Uva. No dia livre do encontro, sai numa excursão para Gramado e Canela. Ao descer do ônibus o que mais me atraiu – além da natureza exótica e acolhedora – foram os três anúncios de venda de uma única casa – por mobiliárias distintas. Atônita, perguntei ao guia se aquilo era normal por ali; sim, o era. Seguindo o percurso, a entrada do Paradouro Lago Negro, um simpático orelhão – com protetor de ouvido contra o frio, saudava os recém-chegados. Pedalinho, bicicleta, loja de chocolates, risadas, encantamentos. O resto do tempo em Gramado reservou-se ao passeio pela fábrica de chocolates Planalto (onde provei três vezes o achocolatado e muitas amostras da delícia em forma de moeda) e ao almoço no Galeto Itália (Mamma mia!), rodízio de massas com acompanhamento de uma jarra de vinho branco e música ao vivo. Rumamos para Canela.

Lá, a primeira parada foi na Igreja de Pedra (em estilo gótico, também batizada como Matriz de N. Srª de Lourdes), dotada interiormente de um ambiente clean, com teto abobadado (abóbadas de aresta) em madeira de tom claro. As pinturas (eram três quadros, sendo um o fundo do crucifixo), remeteram-me aos contos-de-fada de minha infância, em especial um chamado “Os três anõezinhos do bosque”. Diante da pintura à direita do altar, me postei por minutos afinco e chorei. As obras de arte têm disso e, às vezes, quando menos esperamos, elas nos pegam em nossos sentimentos mais íntimos. Ao sair do principal ponto turístico religioso da cidade, conversei com um vendedor ambulante que conhecia o Rio “cidade maravilhosa a tua, tchê!” e visitei uma exuberante loja zen, com direito a fotografias num jardim de inverno cujas palavras agora me faltam para elaborar sua descrição. O ônibus partiria em direção a Nova Petrópolis, o que me deu o tempo ínfimo de comprar um broche do estado em formato da cuia do chimarrão. Antes da próxima cidade, uma parada para degustação e compra de vinhos: Don Collise. Aproveitei para trazer uma garrafa personalizada para meus pais (depois de muitas provas de vinhos, sucos de uva, queijos, salaminhos…).

Nova Petrópolis. O roteiro constituía-se primordialmente de uma passada pelo famoso labirinto da cidade. Desventura do destino, o ônibus quebra e ali permaneceríamos por mais de duas horas. O que fazer numa cidade cuja avenida principal não possui nem ao menos um orelhão? Comer alguma coisa, a janta do alojamento já estava perdida, mesmo. Ponto X, dois pastéis, Tampico e a conta. Conversa jogada fora, voltaríamos a Universidade.

Agora, já era sábado. As resoluções finais do encontro, arrumar de malas, despedir dos novos amigos, coletar de e-mails, 22 horas de viagem pela frente.

Viagem, vinhos, cantorias, gargalhadas. Domingo, 23h.

A partir de então, posso dizer que sou mais Brasil.

*Crônica escrita originalmente em 30/07/2008.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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