Crônicas

Depoimento: #1. Teco

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

Meu nome é Teco. Quer dizer, não é o meu nome, mas é assim que gosto de ser conhecido e chamado. Tenho trinta e três anos. Minha mãe não se esquece de me lembrar que esta é a idade do Cristo. Não sei se ela faz isto na esperança de que eu expie meus pecados ou porque sonha em me ver crucificado. É verdade. Digamos que não sou o filho que ela sonhou. Quer saber o porquê? Bom, vou contar a minha história.

Eu vim para este mundo na casa de uma família cristã, não como a maioria das famílias cristãs deste país, mas uma daquelas fervorosas, que vive professando sua fé e tentando converter a todos. Pode parecer ruim, mas não é tanto quanto parece. Meus pais sempre foram muito justos, nunca me bateram, nem em mim, nem em meu irmão, embora fossem rígidos em sua maneira de educar. Sempre fizeram questão que estudássemos em uma boa escola, embora isso exigisse um grande sacrifício financeiro.

A relação com eles era ótima, muito amor, muita atenção e muito cuidado. Nada disso, porém, evitou que eu caísse em desgraça aos olhos deles. Eu tinha quatorze anos quando aconteceu. Estava descobrindo minha sexualidade, hormônios à flor-da-pele. Tudo era novidade, até porque sexo era tabu na nossa casa, nunca esteve em pauta. Pois bem, nessa época, meu irmão estava prestando o serviço militar obrigatório e fez muitas novas amizades, mas uma em especial. Este amigo começou a freqüentar nossa casa e, sem demora, passou a ser natural que ele dormisse lá depois das saídas que davam. Não vou entrar em detalhes de como aconteceu ou de como era. Isto não é um relato de experiências sexuais. O fato é que começamos a transar. Fui seduzido pelo amigo do meu irmão e me deixei levar. Fazíamos sempre que encontrávamos uma brecha. Acho que, com o tempo, ficamos mais seguros e, por conseguinte, mais descuidados, o que nos levou ao flagrante dado por meus pais.

Foi uma confusão dos diabos. Meu irmão brigou com o amigo, chegando às vias de fato em pleno quartel. Acabaram presos. O assunto deixou de ser um problema familiar e, rapidamente, todos os amigos e conhecidos da família, em sua grande maioria, irmãos da Igreja, ficaram sabendo do motivo da briga. Quando não o todo, as piores partes. Meus pais culparam meu irmão pelo que eu fiz e ele culpou o amigo. Ninguém quis saber se eu havia querido ou não. Eu era uma criança e aquilo nunca deveria ter acontecido. Eu era uma vítima e meu irmão e seu amigo eram predadores cheios de pecado. Todos achavam isto, menos eu. Só que isso não importava. O que interessava era que a família perfeita havia quebrado e não havia cola no mundo que juntasse os cacos.

Numa noite de desespero, peguei um vidro de calmantes e engoli. Passei muito mal e apaguei. Acordei no hospital. Não sei o que houve e ninguém quis me dizer. Só que eu estava melhor e que cuidariam de mim. Preferiram fingir que não foi uma tentativa de suicídio, mas um terrível acidente.

O tempo foi passando e meus pais começaram a cobrar que eu apresentasse uma namorada. Faziam questão que eu conhecesse as meninas da Igreja. E, embora tivesse me tornado motivo de piada para os garotos da minha idade, que me chamavam por diversos nomes, como pão-doce, menininha ou mesmo viadinho, as meninas de lá eram loucas para salvar minha alma. O problema é que, mesmo não tendo nada de afeminado, eu não conseguia interessar-me por elas. Era fácil ser amigo delas, mas não rolava uma atração. Dediquei-me aos estudos e passei a adolescência vigiado e controlado.

Completei dezoito anos e comecei a faculdade de direito. Era um mundo novo, cheio de novidades. Exigia uma boa dedicação aos estudos, mas fornecia experiências novas e a convivência com os mais diversos tipos de pessoas. Foi lá que provei a maconha, o álcool, os beijos masculinos e femininos, o sexo heterossexual, homossexual e bissexual. Experimentei o sexo a dois, a três e, até mesmo, maravilhosas orgias. Foi numa dessas que a casa caiu pela segunda vez. Estávamos na mansão de um dos abastados da turma, fazendo uma daquelas orgias regadas a álcool e muita maconha, quando a polícia apareceu e levou todo mundo preso. Não houve conversa ou propina que desse jeito. Havíamos sido alvo de uma denúncia de um pessoal da faculdade que era da TFP, uma organização católica tradicionalista e conservadora.

Minha família comeu o pão que o diabo amassou com essa. Escutaram dos católicos que era assim que os cristãos não-católicos agiam: freqüentando a Igreja, apregoando a moral e os bons costumes, mas participando de eventos sexuais dirigidos pelo demônio. Eu não era mais a vítima. Pelo menos não dos homens. Estava possuído pelo capeta. Precisava de tratamento e de exorcismo. Não me reconheciam mais. Da noite para o dia, ou pior, de um minuto para outro, tornei-me um monstro maior que qualquer outro que já tinha ouvido falar.

A repercussão foi enorme, a vergonha foi tanta, a humilhação foi tamanha que não tive forças para levantar o queixo por muito e muito tempo. Sentia-me o pior dos homens. Tinha feito as piores coisas que um ser humano poderia fazer. Merecia todo e qualquer castigo, uma vez que havia desapontado meus pais, amigos e familiares. Eu ia à Igreja e rezava todos os dias para que Deus fizesse que eu fosse homem de verdade. Que me apaixonasse por uma garota e que todos se orgulhassem de mim.

O fato é que enrusti todos os meus desejos. Conheci uma menina na Igreja e, mesmo sem amá-la, na ânsia de ser aceito, casei-me com ela. Tivemos dois lindos filhos, um menino e uma menina. Minha esposa era uma santa. Moça de família, muito religiosa, que cuidava da casa e da família com todo afinco. Fazíamos sexo esporádico e tradicional. Terminei minha faculdade e consegui um emprego num bom escritório. Era um homem de verdade, respeitável e pai de família. Meus pais estavam orgulhosos. Os amigos da Igreja fingiam não saber de meu passado pregresso. Afinal, eu estava no caminho da salvação e ninguém queria sentir-se culpado por conta de piadas maldosas.

Tudo estava maravilhoso, pelo menos para os outros. Para mim, a vida passava. A única satisfação era saber que as pessoas sentiam orgulho de mim. Entretanto, sentia-me vazio, vivendo uma vida que não era minha e da qual não havia fuga. Até o dia que a casa caiu pela terceira vez. E, desta vez, a culpa não foi minha. Passei mal no trabalho e fui para casa. Ao chegar lá, cena clássica de novela ou drama cinematográfico: minha mulher, de quatro em cima da nossa cama, com outro homem montado nela. Mas isso não foi o pior. Quando me viu, começou a gritar e a me xingar de babaca, de corno e de viado. Que eu não a satisfazia e que, provavelmente, ao ver aquela cena, o que eu sentia era vontade de estar no lugar dela. Perdi a cabeça. Parti para cima dos dois e dei muita porrada neles.

Descontrolei-me de tal forma que os dois foram parar no hospital.

Não deu cadeia, mas este seria o menor dos males. Mais uma vez, todos souberam de tudo. A culpa era minha, pois não dava amor à minha mulher. Engraçado como, nessa hora, o sexo virava amor. Eu não era homem o suficiente. Continuava o mesmo viadinho de sempre. Minha família ficou contra mim, meu casamento acabou e minha ex-mulher levou meus filhos. Eu fiquei tão mal que pedi as contas do meu trabalho e resolvi sumir por uns tempos. Arranjei umas doses de cocaína e cheirei até chegar a uma overdose ou assim pensei. Fiquei hospitalizado por um tempo, mas não demorou a estar “recuperado”.

Saí do meu estado e fui morar no Rio de Janeiro. Fiquei um tempo pensando na vida, sem saber o que fazer. Procurei um novo emprego e consegui, por meio de indicação, trabalhar em outro grande escritório. Fiz novas amizades, mas sem me abrir muito. Minha vida social era mínima. Não tinha ânimo para festas ou coisa parecida. Trabalhava e ia para casa. Um cineminha de vez em quando.

Até que conheci um alguém. Era um estagiário que veio trabalhar em nosso escritório. Ele tinha apenas vinte e dois anos e eu já estava com trinta. Mas era um menino perspicaz. Percebeu rápido qual era a minha e não me deixou escapar. Foram ótimos momentos, muito sexo e muito carinho. Entretanto, como para a maioria dos meninos da idade dele, os relacionamentos duram enquanto dura a novidade, é apenas tesão e sexo. Não resiste ao tempo. Só que, a essa altura, eu já estava enturmado. Já conhecia as boates boas e muita gente como eu. Ia a lugares de pura cultura, Teatro, Cinema, Shows, livrarias com saraus poéticos. Reencontrei a maconha e o sexo eventual. Trabalhava mais feliz. Fiquei mais seguro de mim mesmo.

Só que isso não durou muito tempo. Pessoas como eu, homossexuais, bissexuais, viados, bichas ou qualquer nome que você queira chamar, reclamam da discriminação, do preconceito, mas são os primeiros a marginalizar quem não se enquadra em seus padrões. Eu estava velho, não tinha mais apelo. Não que fosse feio ou tivesse um corpo horroroso, apenas não era um Apolo sarado de academia. Sei disso porque disseram na minha cara, mas até agora não consegui entender como fiquei tão envelhecido em tão pouco tempo.

Resumo da história: tenho trinta e três anos, vivo só e, na maior parte do tempo, infeliz. Não sei de deixei minha infelicidade transparecer e se foi isso que me tornou um pária entre aqueles que buscam o mesmo que eu. Tudo o que eu queria era alguém para completar o meu mundo, que me fizesse feliz como jamais fui. Estou chegando à conclusão que não nasci para isso. Que a felicidade é para quem foi destinado a ela. Será que os meus pecados levaram-me a isso? Que fui condenado à danação eterna?

Mas que puta misericórdia divina é essa que me condena por ser quem ou o que sou? É melhor mentir e fingir ser outra coisa? Enganar a si mesmo quando não se consegue enganar qualquer outra pessoa? Perguntas. Onde estão as malditas respostas? Estou cansado de buscá-las e de escutar de conhecidos que ainda as encontrarei ou que ainda encontrarei o amor. Não sei o que fazer, nem para onde ir, mas não quero condescendência de ninguém mais. Que se foda o mundo. Sou o que sou. Quem não é?

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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