Crônicas

Depoimento: #2. Osmar

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

Nasci nos anos 30. Bom, no final dos anos 30. Estamos em 2015 e farei oitenta e cinco anos. Faça as contas. Se acha que sou velho, vá à puta que o pariu. Sou um jovem sexagenário. Está bem! Quase septuagenário. Mas há de convir que sessenta e nove anos é uma idade cabalística. Não? É que eu adoro este número. Adoro, pratico e não preciso de Viagra não. Isso é coisa de viado brocha. Não fico tomando remedinho, não tenho problema de pressão e nem diabetes. Sou saudável e estou na pista para comer qualquer cocotinha que curta dar para um coroa enxuto.

Meu nome é Osmar. Não gosto de apelidos. Se vier com diminutivos pra cima de mim, mando tomar no cu sem o menor pudor. Portanto, não faça. Não quero parecer desbocado, mas, quando preciso, não seguro a língua. E, apesar de não ser velho, tenho idade suficiente para ter um vasto vocabulário, tanto chulo quanto culto.

Nasci e cresci numa família como qualquer outra deste país: duro, fodido e ralando todos os dias. Comecei a trabalhar aos treze anos de idade. Ia para a feira carregar sacola para as madames, usava uma caixinha de engraxate para ganhar uns trocados de alguns cavalheiros, ajudava na montagem de circos, entregava jornais. Meu pai, entretanto, não permitia nunca que eu abandonasse os estudos. Estudei em um bom colégio público, coisa que existia na época, e em uma boa faculdade pública também, coisa que ainda existe, mas não é para qualquer um, por incrível que pareça, hoje em dia, é para os mais abastados.

Formei-me em matemática. Adoro tudo que se relacione a ela. O raciocínio é algo que me fascina. Pena que as pessoas pensem que matemática é apenas fazer contas. Pior ainda é ver a dificuldade que as pessoas que acham isso têm em fazê-las. Fui professor em uma época na qual era nobre ser um educador. Quando o respeito era algo quase palpável, quando o mestre era aquele que estava um degrau acima e não era parceirinho de ninguém e nem tinha medo de ser mandado embora porque o colégio tem medo de perder o aluno.

Mas estou adiantando-me. Cheguei lá graças ao esforço do meu pai. Ele, um homem simples e humilde, que trabalhava muito para não deixar nada faltar, sempre exigiu que eu me dedicasse aos estudos. Nunca foi ausente, sempre ao meu lado, aconselhando, ajudando no que pudesse. Sacrificando-se para comprar um livro, um compasso ou outra ferramenta que eu necessitasse. O dinheiro que eu ganhava com meus biscates, segundo ele, era para mim. Qualquer coisa que eu precisasse era obrigação dele. Só que eu não era de farras. Gostava de passear, mas não gostava de deixá-lo só. Ele havia perdido a esposa quando eu ainda era um meninote, tão novo que não consigo lembrar-me dela. Não era justo sair para a esbórnia enquanto ele ficava sozinho em casa. Eu ainda não era hedonista. Assim, usava meu dinheiro para comprar livros que líamos quase sempre juntos e guardava o resto.

Concordo que não foi uma infância comum, mas foi muito melhor que muitas que vi em minha vida. Muito melhor que a do meu neto, por exemplo. Um viadinho maconheiro que não quer porra alguma da vida. Trinta e poucos anos e ainda vivendo embaixo da saia da mamãe. Bom, estou adiantando-me de novo.

Os anos levaram meu pai, mas não antes de me ver casado e com um filho. Ele não teve muito tempo para fruir a companhia do neto, mas aproveitou todo o tempo que teve. Havia orgulho em seu olhar quando via o menino e não cansava de dizer que parecia estar vendo o próprio filho pequeno de novo. A alegria que eu sentia nestes momentos não tinha limites.

Meu filho era um menino ativo e inteligente. Conquistava a todos com sua simpatia e seus sorrisos constantes. Eu lecionava em poucas escolas e quase todas públicas. A única particular era uma das mais caras do estado. E foi lá que meu filho foi estudar. Com bolsa de filho de professor, claro. Sua inteligência valia-lhe boas notas e destaques na escola, mas sempre na área de humanas. Suas notas na área de exatas eram no máximo regulares. Casa de ferreiro, espeto de pau. É clichê, mas eu sou matemático e não escritor.

Pode parecer estranho, mas não ficava triste por causa disso. Orgulhava-me em ver meu filho saindo-se bem na escola, com destaques nas feiras de ciências, nas artes cênicas e nos esportes. Era todo um mundo novo que ele me descortinava e eu adorava. Procurava participar de sua vida o máximo que podia e o incentivava em todos os seus projetos.

Logo que começou a faculdade de biologia, começou a namorar uma menina. Antes do final do curso, já estava casado e com um filho. Trabalhava dando aulas de inglês e espanhol nos mesmos cursos em que se formou e ganhava um dinheiro razoável, pelo menos o suficiente para sustentar sua família. Não pretendia continuar lecionando. Sonhava em ser biólogo marinho. Não conseguiu chegar lá. No dia da formatura, estávamos esperando sua mãe chegar do trabalho e ele resolveu buscá-la para economizar tempo. Na volta, um acidente tirou-me meu filho e me deixou viúvo. Quase enlouqueci. Amava minha mulher, mas meu menino era tudo para mim. Nenhum pai deveria passar por isso. Foge à ordem natural das coisas e dói mais que qualquer outra perda que você tenha. Sofri quando meu pai morreu, sofri pela minha mulher, mas a perda do meu filho foi, sem dúvida, a dor mais pungente e mais cáustica que já senti.

O golpe foi grande e me mudou demais. Comecei a ter oscilações de humor. Fiquei mais agressivo e mais impaciente. Minha nora foi muito paciente comigo e, apesar de todo o seu sofrer, consolava-me e me lembrava que eu tinha um neto que precisava da minha atenção. Aos poucos, fui transferindo meus sentimentos para aquele menino, sonhava que ele poderia ser igual ao pai e, confesso, até exigia isso dele. Porra nenhuma! O moleque nem de longe lembrava o pai. Era todo manhoso, cheio de frescuras e não-me-toques. Não gostava de esportes. Vivia gripado ou alérgico ou sei lá o quê. Sempre grudado na barra da saia da mãe, chorava por qualquer coisinha.

Fiz um esforço soberbo para me acostumar com isso. Só na escola consegui sentir algum orgulho. O garoto adorava matemática e era realmente bom nisso. Coloquei-o em diversas olimpíadas e ele venceu algumas. Comecei a me animar novamente. Até o dia que o flagramos, adolescente, no quarto transando com um coleguinha de estudo. Puta que o pariu! Eu lá tive neto para dar a bunda por aí? Dei-lhe muita porrada e proibi um monte de coisas, como sair ou estudar com amiguinhos no quarto. Mas não adiantou, viado quando está afim de dar, ninguém segura. A mãe, como sempre, ficou do lado dele, o que nos levou a uma briga terrível. Acabei esquecendo que tinha um neto e não fazia a menor questão de ter uma neta, pelo menos não desse tipo.

Tornei-me um ermitão. Vivia de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Era estranho para uns, excêntrico para outros. Um dia, na escola, aquela dos ricaços, percebi que uma aluna provocava-me com olhares e expressões. Era comum esse assédio das meninas, já estava acostumado com isso. Sempre consegui contornar estas situações, mas esta garota era diferente. Havia uma sensualidade enorme nela. Uma Lolita clássica. Flertávamos discretamente no início. As brincadeiras começaram a ficar mais ousadas depois e já chamavam alguma atenção e geravam alguns comentários.

No último dia de aula daquele ano, a menina resolveu mandar um bilhete convidando-me para sair, deixando o número do seu telefone. Senti-me um garoto. Não sabia o que fazer com aquilo. Rasgava e jogava fora? Guardava e ligava? Fiquei cinco dias neste dilema e acabei ligando. Fomos assistir a um filme do Sean Connery, mas não lembro coisa alguma dele. Ela não me deixou olhar para a tela, beijou-me, agarrou-me de tal forma que eu fiquei louco. Quase no fim da sessão, ela me pediu que a levasse a um motel. É claro que a levei. Foram horas maravilhosas. Aquela menina era uma mulher feita. Deu-me um prazer incomensurável.

Engatamos um romance durante as férias escolares e conseguimos manter segredo durante um tempo. Mas os pais dela descobriram e aí fodeu de vez. A sorte é que os pais ricos, membros da alta sociedade, não queriam escândalo. Não tomaram atitude alguma grave. Entretanto, conseguiram minha cabeça na escola. Perdi um emprego maravilhoso de anos e anos. Perdi quase cinqüenta por cento da minha renda. Que trepada cara do caralho! Mas valeu a pena, se quer saber. Não me arrependi nem um pouco que seja.

Claro que fiquei um tempo meio mal, triste por perder a garota, por perder o emprego, mas, logo, percebi que não havia motivo para pânico. A informática havia chegado para salvar a minha vida. Muitos programadores que sabiam maravilhas sobre programação, mas pouco de matemática, começaram a solicitar meus serviços. Fora isso, o principal, garotas a rodo querendo um cara maduro e experiente. Foi aqui que comecei minha fase hedonista.

O prazer é o bem supremo, todo o resto é efêmero. Descobri que nosso comportamento é motivado pelo desejo de prazer e pelo de evitar o desprazer. Mas não pensem que se trata apenas de sexo. É o prazer de uma boa leitura, de degustar um bom vinho ou uma boa comida, de curtir uma viagem, de ver um filme de rosto colado ou de braço dado e, é claro, de namorar pelado.

Meu neto, por exemplo, é hedonista sem saber. Só que ele tem prazer pelo lado errado. Está sempre de costas para o prazer. Mas isso não vem ao caso. É pura implicância e preconceito meu. Mas, porra, viado é sempre bonitinho e legal quando é filho ou neto dos outros. O cara quando é liberal, cabeça aberta, ou é por adesão ou é por distância. Nunca vi homem algum dizer: “Meu filho é homossexual. Que orgulho! O namorado dele é lindo e divertido.”. Já viu alguém assim? Eu, nunca!

No fundo, o meu problema é frustração. Meu filho querido foi-se. Deixou-me um neto que poderia ser a continuação de nossa família, mas que, pelo andar da carruagem, não terá um filho em momento algum da sua vida. Não há nada pior na vida que inverter a ordem natural das coisas. Um pai jamais deveria enterrar um filho. Jamais. Assim como um homem nunca deveria dar a bunda. Tenho dito!

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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