Crônicas

Depoimento: #4.SG

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

O que eu perdi? Por que sinto que falta algo em mim? É um vazio, uma coisa que não se mensura, mas que às vezes chega a ser tão grande que assusta. O pior é que isso me fragiliza; qualquer filme mais forte deixa-me com olhos marejados. Não sei explicar, é como se tocasse em algo que eu não sei que está ali. Será que estou ficando depressivo?

Não importa meu nome. Qualquer um poderia contar o que vou contar. Não importa a minha idade. Não há uma certa para amar, desiludir-se ou, até mesmo, morrer. Isto não é um depoimento. Em verdade, é mais. Um desabafo e uma despedida. Estou dizendo adeus a este eu; ele morreu. Vida longa ao novo eu.

Não sei bem por onde começar. Talvez contando que fui um rebelde aos olhos de meu pai. Um revoltado que nunca roubou, que nunca fumou maconha, cheirou cola ou cocaína. Nunca, sequer, foi preso por vadiagem, briga ou outro motivo torpe. Um rebelde sem justificativa, sem causa e sem conseqüência.

Quem sabe possa contar sobre a minha adolescência, pulada por causa da conturbada relação de meus pais, na qual fui inserido e da qual demorei a conseguir sair? Aos onze anos, menino ainda, a bomba da traição foi jogada na minha cabeça e ela sempre explodia. Sempre cri que foi ali que fiquei adulto. Aos treze, só queria saber de sexo. Deus sabe quantas mulheres magoei e que só depois de muito tempo senti algum remorso, mas nunca pude desfazer o que fiz e nem mesmo pedir desculpas porque não tenho mais contato algum e de algumas nem mesmo me lembro.

Posso contar do primeiro amor, aos dezesseis, e da primeira decepção, aos dezoito, que fez de mim um verdadeiro canalha para as mulheres. Não queria mais saber de compromisso, mas dizia qualquer coisa para atingir meu objetivo. Logo depois, descartava-as porque a novidade já tinha passado. Era gostoso conquistar, usar e jogar fora. Não percebia, naquela época, que poderia estar magoando alguém para a vida inteira.

Posso falar do segundo amor e do quanto lutei contra ele, a ponto de quase perdê-lo. Foi necessária uma reconquista depois do descarte, da auto-análise e da aceitação de que a amava.

Que tal as faculdades começadas e não terminadas? As experiências profissionais frustrantes. As pancadas financeiras que a vida dá quando não se espera. As lições amargas que aprendemos e as decepções que temos quando confiamos plenamente em alguém. A sensação de que o tempo passou e que nada do que você fez valeu a pena.

Também posso falar em casamento, no quanto é difícil estar casado. Você se força a mudar, a ser o homem que ela quer que você seja. Fiel, responsável, trabalhador, amante, amigo e domado. Sim, você passa a ser dela. O ciúme é uma faca com um fio muitíssimo afiado. Nada do que você faz está certo e tudo vira uma briga que nunca acaba, apenas se acumula para a próxima briga. Não que não tenha seus momentos. De fato, há grandiosos momentos. Mas, de repente, você percebe que não sabe para onde a balança está pendendo. Tantos problemas, tantas reclamações, tanta rotina e tão menos troca de amor.

Há ainda as brigas familiares. Pais, filhos, irmãos, sogros, cunhados, tios, sobrinhos, primos e afins. Sempre há algum problema e você nunca entende o porquê de ser assim. Por que não se pode conviver em paz, sem tanta mesquinharia, hipocrisia e falsidade?

Aí, você chega a um ponto em que sonhar é fácil, mas realizar os sonhos é cada vez mais difícil. Você está cercado por todos os lados. Cansado da vida e cansado de ser quem é. Você acha que tudo poderia ter sido diferente se tivesse feito alguma coisa diferente. Entretanto, a grande verdade é que você não pode e nunca vai descobrir se realmente seria assim. São muitos “se”, mas nenhuma certeza de coisa alguma.

Você chega à conclusão que precisa mudar, mas como? E as suas responsabilidades e os seus compromissos? Mulher, filhos, casa, contas e despesas do lar. O que fazer? Esta é a grande questão: o que fazer?

Você não tem uma resposta para isso e segue sua vida cada vez mais frustrado, cada vez mais impaciente, irritado, cansado e agressivo. Tem vontade, mas não consegue chorar. A pressão aumenta, o coração reclama, a cabeça dói e o corpo suporta. Mas e a mente? Será que agüenta?

Hoje, quero morrer. Não. Quero matar este eu frustrado, de sonhos não realizados, de pesos mal pesados numa balança mal aferida, de felicidade duvidosa, de fidelidade mal digerida e de amor grande, porém cego e impotente. Este sonhador de sonhos não realizados e que tem medo de conseguir o que quer.

O que eu perdi? Não sei! Mas quero muito achar. Quem é este novo eu que quer desafiar tudo e todos, que quer um novo começo sem descartar aquilo que não pode e nem deve descartar, que não está nem aí se gostarão ou não, que quer preencher o vazio que existe em si e que não medirá esforços para conseguir o que quer? Não sei! Estou apenas começando a conhecê-lo. Será uma nova e grande jornada!

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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