Crônicas

Desde sempre e desde 1924

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

A saliva doce escorria da boca ao pescoço, parando de encontro a gola do vestido. O tom amarelado do sumo cintilava com os últimos raios do dia. A mangueira estava farta aquele ano, e era um prazer imensurável escalar aqueles galhos para saborear, lá do alto, um de seus deliciosos frutos. Bochechas tão rosadas quanto o pôr do sol e a própria casca da manga, lábios marotos e o olhar de quem é feliz. Sabia que deveria entrar e escovar os dentes, lutar com o chatíssimo fio dental para tirar os fiapos de sua arcada dentária banguela. Não importava: tinha o mundo aos seus pés e, mais tarde, ao se deitar, a brisa da janela traria belos sonhos e o dia seguinte repleto de brincadeiras e novos motivos para sorrir.

Anos se passam e a menina agora trabalha de segunda à sábado, não visita a casa da avó onde a mangueira, outrora seu lugar preferido no mundo, não dá mais frutas como antigamente. Mora na capital em um conjugado alugado e, ao dormir de janela aberta – coisa rara em cuja cidade o verão está presente anualmente, dia após dia – seus sonhos tomam o rumo oposto e o que resta são intervalos na rotina para apenas recarregar as energias.

Todos que moram sozinhos tem por melhor amigo a eletricidade: a televisão preenche a casa como uma companhia quase corpórea, a máquina de lavar, o microondas e o aspirador de pó fazem as vezes de mãe e o computador e o carregador de celular são os fiéis escudeiros. As lâmpadas fazem possíveis as atividades pós entardecer. Ler um livro, viajar no tempo através de fotos e objetos antigos, abrir a carta remetida de sua cidade que o porteiro entregou ao entrar na portaria…

Em Friburgo permanecem seus amigos e familiares, a escola que estudou nos ensinos fundamental e médio e a Casa de Galdino do Valle Filho.

Galdino, médico político brasileiro, foi vereador de Nova Friburgo e no início dos anos 1910, responsável pela instalação de energia elétrica naquela cidade de clima propício à cura de doenças inflamatórias, formada por suíços e um decreto de D. João VI. A partir de 1924, Galdino passaria a ter um de seus atos entre os de maior prestígio no cenário do país, ao instaurar o 12 de outubro como o Dia da Criança.

A menina, sem saber, e pelo simples fato de nascer friburguense, passaria toda a sua vida acompanhada não somente pela eletricidade – a boa companhia dos que se sentem só -, mas pela felicidade que não morre, a sua criança interior.

A Galdino do Valle e a todas as crianças que ainda saboreiam mangas como se fossem crianças, estas palavras de um Feliz Nosso Dia.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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