Crônicas

Desligar-se + anonimato: crônicas

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Estou desligada. O elevador chega ao meu andar e faz um barulhinho quase imperceptível; trocaram as portas em grade por novas, metálicas – por isso, eu quase o deixo partir sem mim. Na rua, um taxista está parado junto ao meio-fio cortando as unhas. O relógio próximo ao metrô ainda marca 0 graus – não existe manutenção há mais de um ano. Desço para embarcar. A fila para recarregar o Rio Card está grande, como sempre e, como sempre, só duas das quatro máquinas estão em funcionamento. A composição com destino ao Uruguay chega rápido, para meu espanto e apreciação máxima (a rapidez e o ar condicionado que vou curtindo durante a viagem, mesmo que em pé). Para passar o tempo, abro o Google no celular e me vem a seguinte notícia, no feed: tamanho do pé de Bruna Marquezine causa espanto entre internautas.

Olho para aquilo e instantaneamente me pego lendo a matéria. É tão inacreditável que chega a ser impossível resistir à curiosidade de entender o porquê de violarem a intimidade e atirarem pedras quanto ao pé de uma estrela da televisão brasileira, atriz desde pequena. Mas o que ela tem de idade, tem de fama. Faz parte do jogo. Fico com pena, acho injusto. Uma internauta dá graças a Deus sobre a “descoberta” da musa não ser perfeita; outra diz que o fato afeta a beleza total da atriz, e completa com uma foto de seu próprio pé, “isto é um pé bonito”. O pé da Bruna viralizou na internet. Olho para minhas unhas por fazer e penso: pelo menos as dela estavam bem feitas.

Algumas estações depois, descubro que uma loja de grife enfrenta polêmica por vender roupas do Brás com sua etiqueta. Desde que o mundo é mundo existe o comprar itens por preços super em conta para os vender “personalizadamente”, por valores bem mais caros. Mas uma loja de marca não deveria entrar nessa. Isso é enganação, é um babado e tanto, digno de pauta.  A mídia cai em cima. O rapaz que devolveu uma carteira com R$850,00 também está entre as últimas notícias: penso que o gesto é bonito, mas normal deveria ser devolver os pertences inviolados aos seus donos, e não casos isolados, dignos de reportagem. Não desmereço a atitude, gostaria apenas de vivenciar um mundo diferente. O noivo da Marina Rui Barbosa vai buscá-la num evento de grife, enquanto o meu me aguarda na próxima estação para uma reunião de negócios. Eu, graças a Deus, não sou notícia, e o tamanho do meu pé, os caminhos que faço e as roupas que uso permanecem no anonimato. Ao anonimato, que me serve de gancho para novas crônicas, um brinde!

Enquanto isso, o Itaú passa a frente do Banco do Brasil, tornando-se o maior banco do país. Plausível: só na principal Avenida de Nova Friburgo existem 5 daquele, enquanto apenas 1 do original de 1808; a febre amarela chega à floresta e põe em risco espécies ameaçadas de extinção e as obras para as Olimpíadas no Rio já são um fardo para a prefeitura. Desligo o celular e penso na minha orquídea amarela, que dá flores praticamente o ano todo. As crônicas têm a possibilidade de desviar nossa atenção do dia-a-dia, fazermos desligar, mesmo que por instantes. Um brinde às crônicas!

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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