Crônicas

DESPREZADOS E DESPREZÍVEIS

Campista Cabral
Escrito por Campista Cabral

Desprezados e desprezíveis foram duas palavras usadas pelo senhor presidente para falar a respeito de sua delicada e tensa situação na capital federal.

Desprezível capital dos horrores desta terra de ninguém!

Penso nessas duas palavras. Penso no cotidiano massacrante de inúmeros brasileiros. Penso nessas duas palavras e penso ainda mais no significado agudo e cortante do desprezo!

Desprezo, falta de estima, apreço ou consideração. Desdém…

Desprezível, digno de desprezo, de baixo valor ou que pode ser desconsiderado…

Desprezados brasileiros e desprezíveis os esforços de seu trabalho.

Desprezados meninos e meninas das periferias. Vivem à margem da margem, lugar em que prédios imundos e perfurados por balas são chamados de escolas e onde não há perspectiva de futuro.

Desprezíveis os poucos cadernos usados maquinalmente, na esperança vã de que alguma coisa aconteça.

Desprezadas as famílias que diariamente sabem o quão ruim é o transporte coletivo e o trânsito das grandes cidades.

Desprezíveis as horas de sono conturbado no ônibus e barcas e trens.

Desprezíveis o tempo sem dormir para estar mais cedo e sair mais tarde e cada vez mais tarde e cada vez mais cedo.

Desprezados os homens de bem desta nação!

Veem carcomido o salário bruto, liquefeito após taxação sobre taxação!

Desprezados somos nós todos os dias quando enganados e roubados e humilhados miseravelmente por quem deveria pensar no melhor…

Penso que a crônica, velha companheira de infortúnios, não se cansa e não despreza, a despeito do próprio cronista, o dedo na ferida, o olho no furacão e a palavra afiada.

penso que, de tempos em tempos, alguma coisa, algum movimento, um terremoto (físico ou metafórico), um maremoto, um tsunami ou algo que o valha, venha varrer, limpar, redesenhar toda a porcaria feita e dê um sinal de que há, sim, esperança em meio ao lamaçal.

Isso não desprezo!

Contudo, todos os que ignoram ou fazem pouco caso do povo, estes sim, deveriam ser desprezados perpetuamente.

Desprezados!

Desprezíveis!

 

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Sobre o Autor

Campista Cabral

Campista Cabral

Escritor, poeta e cineasta amador. Publicou quatro livros. O REI, O POETA, A MULHER E O MAR (contos), TERRA BRASILIS (crônicas), PARA ENTENDER UMA NOVA EDUCAÇÃO (livro voltado para os problemas da educação no século XXI) e FORMAÇÃO DOCENTE E PRÁTICAS INOVADORAS (livro sobre novas práticas docentes no ensino superior). Realiza anualmente o FESTIVAL DE CINEMA DE TERESÓPOLIS e, dentre alguns trabalhos na área, destaque para o filme NOITES COM SOL (2011) e os documentários PALAVRAS (2008), CAMINHOS EUCLIDIANOS (2012) e O QUE É FELICIDADE? (2013). Escreve regularmente para o Escritartes (www.escritartes.com) e Recanto das Letras (www.recantodasletras.com)

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