Crônicas

Dia dos Pais

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quando meu pai tinha por volta de onze anos, perdeu o próprio pai e tornou-se o único homem da família, constituída pela mãe e duas irmãs, sendo ele o filho do meio. A irmã caçula morreu com apenas dezoito anos e, exatamente um ano depois, morreu também a irmã mais velha. Sua mãe veio a falecer quase em seguida, deixando-o praticamente só no mundo. Sobrou-lhe a avó materna, certamente abalada pela tragédia que lhe ceifou a filha, o genro e as netas. Com fama de mulher forte, teve coragem suficiente para abrigar o neto desamparado, e foi com ela que meu pai morou até se casar com a minha mãe.

Tudo isto se passou em Portugal. O português, principalmente o mais pobre, traz nos genes a ideia da imigração, para “vencer na vida”. No caso do meu pai, além do espírito de aventura e da vontade de buscar oportunidades que não existiam na pequena cidade onde morava, imigrar era igualmente uma forma de se afastar do ambiente em que ocorrera a tragédia que atingira sua família.

Por conta desses acontecimentos, que não gostava de comentar, o adulto jamais se libertou da tristeza do menino. Mas era determinado, e lutou muito para alcançar a tal vitória na vida. No caso, dar aos filhos um nível universitário e uma vida de classe média. Com a ajuda de minha mãe, outra lutadora (contudo essa conversa fica para uma próxima ocasião).

Meu pai imigrou para o Brasil. Poderia ter escolhido qualquer lugar do planeta, porém o clima, e as chances que naquele tempo diziam existir por aqui, soaram-lhe atraentes. Foi assim que me tornei carioca.

Contava que, quando o navio que o trouxe para o Rio, se afastou do cais, muitas pessoas permaneceram no convés, acenando para as que ficavam. Ele acenou também, embora não houvesse ninguém se despedindo dele, porque não queria parecer abandonado. Além disso, desejava ver Lisboa do mar, e não tinha pressa em descer para a cabine de terceira classe que ia dividir com mais cinco imigrantes, todos em busca da terra prometida. Que nunca seria como o eldorado dos seus sonhos. Deixava Portugal para jogar-se na aventura que povoa os sonhos do desbravador. Não sabia ainda que dormiria em obra, comeria parcamente, e que muitos o julgariam condenado a ser peão. Nem que teria de lutar contra o preconceito que o mundo dedica a quem teve menos oportunidades na vida.

Veio para o Rio já com garantia de emprego, mas alimentava a ambição de lançar-se por conta própria, e tinha a coragem dos destemidos que têm pouco, ou nada, a perder. Habilidoso, um marceneiro de primeira, achou que seria bem-sucedido colocando olhos mágicos em portas, uma novidade na época. Foi sua primeira iniciativa brasileira para melhorar a renda. Mandou imprimir uma resma de cartões de visita oferecendo seus préstimos, e os distribuiu por vários bairros. Estranhou que ninguém lhe telefonasse, nem para perguntar o preço. Desconhecia que no Rio de Janeiro, cidade grande, e desconfiada desde sempre, dificilmente se chama um desconhecido para fazer serviços em casa.

Quando o imigrante chega ao destino escolhido, quase sempre encontra uma sociedade diferente da que imagina. Os obstáculos não são pequenos. Certas coisas, a gente só consegue entender se cresceu no lugar, e isso vale para qualquer lugar. São as canções da infância, as brincadeiras que se fazem em conjunto, o convívio na juventude, que uniformizam um grupo social. Um imigrante não tem essa bagagem local. Permanece, mesmo se bem aceito, um eterno forasteiro.

Por outro lado, de onde o imigrante saiu, as coisas não prosseguem congeladas no tempo, e ele acaba se desatualizando. Quando retorna à pátria, é visto pelo viés do país para o qual imigrou. Cansei de ouvir algo como “os canadenses”, referindo-se a portugueses que vivem no Canadá. O imigrante é um produto híbrido, fica pelo meio do caminho: não pertence totalmente nem ao seu local de origem, nem ao local que elegeu. Meus pais eram considerados portugueses no Brasil e brasileiros em Portugal.

Meu pai buscou vários caminhos, e trabalhou muito até conseguir estabelecer-se no comércio, com mais dois sócios. Um morreu, o segundo tentou passá-lo para trás. Comprou a parte dos dois com grande esforço, e às custas de cortar as despesas da família. Mesmo assim, o comércio não deu certo. Decidiu voltar ao ramo da construção civil, agora como empreiteiro.

Dezoito anos de luta se passaram antes que ele tivesse condições financeiras de visitar Portugal. Sentia-se triunfante, orgulhoso do que tinha conquistado: empresário pequeno, filhos estudando. Um vencedor. Contava a aventura aos amigos, e já se esquecia das dificuldades e das noites em claro, preocupado com compromissos assumidos, que lhe pareciam às vezes impossíveis de cumprir.

Desde jovem, lia o que lhe chegava às mãos e, por conta da leitura, entendia de coisas variadas. Era curioso e empreendedor. Criou abelhas em Portugal e caracóis no Rio de Janeiro. Tudo aprendido nos livros. À inteligência nata, ia aliando a experiência e o conhecimento.

Por causa dessa cultura geral, de vez em quando ilustrava a conversa de forma inusitada. Dizia, por exemplo, que as soluções humanas sempre perdiam para as soluções da Natureza. Explicava: as solas dos sapatos desgastam-se com o uso, tornam-se imprestáveis. Se andamos descalços, as solas dos pés, ao contrário, engrossam com o uso, tornam-se cada vez mais eficientes.

Era muito inteligente, o que lhe disse repetidas vezes, mas ele não acreditava na minha sinceridade. Achava que, num gesto de amor, eu o elogiava apenas para agradá-lo. Tinha pouca educação formal, e não concebia que uma filha doutora pudesse considerar brilhante alguém que não tivesse concluído os estudos. Nunca consegui convencê-lo do oposto, pois, ao contrário de tanta gente boa por aí, ele compreendia a extensão da ignorância humana.

Meu pai já não está mais entre nós, porém continua dentro de mim até que a morte nos reúna. Se é que isso existe.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

%d blogueiros gostam disto: