Crônicas

Diário do roteiro de uma arquiteta-escritora pela Itália

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

A vida acontece em lugares de pavimentação bonita, clima ameno, canto dos pássaros, sensação de segurança e telhados cerâmicos. Carros passando ao longe e resquícios de atividade humana, seus burburinhos ou rastro de arte.

Acontece onde até os pombos parecem mais bonitos… o pó da história passa dos tijolos à minha mão; quase 2.000 anos em um toque breve. Tudo é motivo de encantamento. As pequenas ondas do Segundo maior Lago italiano batem nas pedras, uma bagunçada orquestra de vozes infantis em harmonia com as engrenagens do balanço me chegam pelo ouvido direito, enquanto o esquerdo não consegue particularizar as vozes que conversam no bar atrás de mim, no “Lungo lago” (Boulevard à frente do Lago).

De tudo o que há no mundo, meus maiores tesouros são meus pés, que felizmente caminham por tantos lugares ao redor do nosso planeta; meus olhos – impagáveis e insubistituíveis – por tudo o que enxergam, observam e me emocionam. Meus ouvidos e tato não ficam atrás: sou meu maior tesouro, o que não é ser narcisista. Sou um ser viajante, sou a melhor parte do que eu desejo ser, sempre.

Se eu fosse uma casa, meus pés seriam a estrutura, enquanto os olhos seriam varandas e ouvidos e tato, flores e aromas de cozinha.

Pego um sol em Stresa, cidade que conheci através do filme “La Sapienza”, passeio por Como, Milão e, no mesmo dia, Bergamo, Lecco, Bologna e Forlì; Modena me é apresentada por uma amiga italiana e La Spezia, para mim, se resume à estação de trem e o hotel, em frente. Tenho vontade de ter mil vidas para poder fazer tudo o que eu quero. Um passarinho canta sobre uma palmeira. Uma loja fecha para o almoço. O sino da igreja soa algumas badaladas, as casas são todas em tons pasteis…

Uma casa não pode não ter uma varanda. Ela é a conexão mais delicada e agradável entre o homem e si mesmo, o homem e a sociedade. O fim da solidão, nos edifícios multifamiliares. O início do prazer no cotidiano, simples. Um outro dia, no Rio, passei por um prédio que incluía varandas em sua fachada.. se você mora em um edifício e não tem seu balcãozinho, essa é uma excelente opção de pauta para a sua próxima reunião de condomínio.

Pela terceira vez em 5 anos, aqui estou novamente, desbravando o país que seria meu por direito não fosse a bendita Constituicão italiana de 1948, a guerra e algumas outras peculiaridades. Em minha última estadia tive “un balcone” para chamar de meu durante longos e glamourosos 7 meses. Meu querido companheiro sobre um parque romano, que eu limpava, enchia de flores e de plantas aromáticas, ali falava ao telefone, escrevia, estudava, desenhava, fazia pequenas refeições à luz de velas e assistia filmes em meu notebook no inverno, acalentada por uma coberta de avião, na poltrona de pentear que fazia parte do mobiliário do quarto…

Nada melhor do que aproveitar o “Dolce far Niente” italiano. Nada melhor do que viajar. Nenhuma sensação é mais comovente do que acompanhar o vai e vem das folhas, que se movem ao sabor do vento… Eu que gosto tanto de cidade grande, me vejo cada vez mais apaixonada pelas cidades pequenas italianas. Alberobello, há pouco mais de um ano, apesar de não possuir varandas, me fascinava com seus “trulli”, casinha que quero ter para abrigar a minha velhice, quando for a hora.

Depois de passar pelo Piemonte, com temperatura em torno de 8 graus, tirei o sábado para conhecer Cinque Terre, e me encantar com a beleza das casas sobre rochedos antes pensados inabitáveis, as plantações de uva, o mar, o Gigante, patrimônio da Humanidade pela Unesco, de Monterosso al Mare. Agora, num trem com destino a Toscana, o céu me chega pela janela salpicado de nuvens. Mas os raios de sol persistem: o domingo há de ser incrível em Montalcino! Desde 1958, a cidade tem por tradição, no último domingo de outubro, uma cerimônia regada a vinho e antigos uniformes coloridos que, representando os bairros, lançam flechas pela cidade. É a Sagra del Torto e por sorte do destino (e um não sei quantas trocas de trem e ônibus), estarei lá esta tarde!

Assim como as folhas, ao sabor do vento, vou desenhando o mapa da minha viagem. Cada dia é vivído ao máximo, sem que o próximo seja definido antes do entardecer.

Amanhã não sei onde estarei. A única certeza é que no dia 29, à noite, estarei embarcando em Milão com destino ao nosso Rio de Janeiro, e que, no próximo domingo, a crônica será, de novo, carioca.

Bom domingo a todos!

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: