Crônicas

Do simbolismo cromático à forma nua e crua

Raízes Imaginárias, pintura de Claudio Leal Cacau
Tchello d'Barros
Escrito por Tchello d'Barros

“Uma pintura é um poema sem palavras.” – Horácio

Com a série de pinturas Raízes do Imaginário, o poeta Cláudio Leal Cacau evoca sua vertente plástica, dessa vez para nos instigar com um tema sempre em aberto: as feridas de nossa história mestiça, de nossa sociedade miscigenada e da incessante luta pelas afirmações raciais que constituem nossa nação brasileira. Entre as opções estéticas adotadas, evita o perigo de cair nos meros clichês da arte de denúncia, mas traz a lume elementos visuais da Negritude que poeticamente sugerem um debate, alentam uma discussão, promovem uma reflexão.

Daí a opção cromática, na paleta de cores, pelo Preto-e-Branco, cuja dualidade é tingida por sanguinolentas camadas escarlates, com todo seu simbolismo de paixão e furor. Mas Cláudio Leal Cacau decide também não nos entregar nem o corpo nem a alma de suas feéricas e fluidas personagens, de forma muito fácil. Convida-nos a decifrar as silhuetas de suas imagens em tinta a óleo, as pinceladas parecem provocar-nos a também completar essas figuras em nosso imaginário, e também construí-las, em analogia à possibilidade de construirmos o destino que queremos para nosso povo, para nosso país.

Estamos diante de uma série que se quer graficoplástica, fototrágica,  antropomágica, sensorial, sensual e para além do senso comum. São raízes que questionam a função social da arte ao nos lembrar que esta pode ser engajada sem ser panfletária, pode ser arma de combate ideológico pela conscientização, documento questionador da história oficialesca, grito de dor ou sopro de vida. Utópico e visceral, Cláudio Leal Cacau materializa sua pintura, com um olho na tradição neoexpressionista, outro nas representações visuais da atualidade, numa abordagem onde se abrem grilhões para abrir ainda mais o diálogo, seja entre os povos, seja entre cores e formas, mas sempre no desejo por um mundo menos opressivo, mais poético e muito mais libertário.

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Sobre o Autor

Tchello d'Barros

Tchello d'Barros

Escritor e Curador de Artes Visuais. Realiza editorias independentes e curadorias em diversas instituições culturais.

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