Crônicas

Dois Irmãos

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Tem gosto para tudo.

Está no Rio de Janeiro e quer fazer um programa diferente? Suba o Morro Dois Irmãos. Há uma trilha que sai do Vidigal até o cume do irmão maior. Não vá sozinho: embora não seja difícil e costume ter movimento, a trilha atravessa a mata e pode ser escorregadia em alguns trechos mais íngremes. É melhor ter companhia e, se você não tem experiência alguma com trilhas, vá com um guia. Esse passeio está se tornando popular e existem vários sites na internet que organizam grupos guiados.

Comece subindo o Vidigal de Kombi para poupar energia, você vai precisar dela. Também não a desperdice carregando morro acima coisas desnecessárias. Leve só o indispensável: boné, celular e/ou máquina fotográfica, água, um lanche pequeno tipo barrinha de cereal. Não se esqueça da água de jeito nenhum, a subida leva de uma hora a uma hora e meia e você vai suar a camisa.

Nada de sandálias, prefira tênis ou qualquer outro calçado com aderência para conseguir mais facilmente pular sobre as pedras e troncos que encontrará por todo o caminho. Em tempos de zika, mesmo quem não for desejável do ponto de vista dos insetos deve usar repelente. Pela mesma razão, e até para evitar o risco de voltar com as pernas arranhadas, é melhor optar por calças compridas.

Crianças também podem subir, mas espere crescerem o suficiente. Vi um grupo de umas sete ou oito pessoas, totalmente sem noção, vestidas como se fossem passar o dia na praia, de chinelos e calções, subindo com dois meninos de cerca de quatro anos de idade. Obviamente que o esforço era grande demais para as crianças, que tiveram de ser carregadas no colo. Quando passamos por eles, os adultos estavam se revezando nessa tarefa e pedindo socorro uns aos outros. Se não voltaram do meio do caminho devem ter atingido o topo à beira de um ataque cardíaco.

Só vá em dia bonito e é melhor aproveitar as horas em que o sol não estiver muito forte. Dizem que a temperatura desce muito quando escurece, mas pouca gente se aventura a permanecer no cume até o anoitecer. Descer a trilha à noite não é para amadores.

Além do tempo bom, é preciso também que não tenha chovido muito nos dias anteriores porque nesse caso você dificilmente escapará de escorregar na lama ou nas pedras lisas.

A maior parte da trilha é dentro da mata, mas quando a paisagem se abre é um deslumbre. Primeiro a Pedra da Gávea, São Conrado, a Rocinha. Depois Gávea, Jardim Botânico, Leblon, Ipanema, Lagoa, Corcovado, a Baía da Guanabara. Sem falar nas Ilhas Tijucas, nas Ilhas Cagarras e no mar que envolve as paisagens.

Do alto do irmão maior, em um dia claro, se avista a Lagoa de Piratininga e o perfil dos morros de Niterói. Esqueça as fotos: ao vivo a coisa é outra. Vale todo o esforço.

Claro que alguém pode argumentar: para quê subir a pé um morro desses quando se pode ir confortavelmente ao Corcovado ou ao Pão de Açúcar? Além disso, no Rio há tantas paisagens para apreciar que muitas vezes basta estar na altura de um prédio para ter acesso a uma bela vista. Não há resposta possível, cada um segue a sua natureza. Fazer uma trilha dessas, ainda que bem sinalizada, requer disposição. Só é válido se for prazeroso.

Estive no topo do irmão maior, façanha que me enche de orgulho porque não sou nada esportiva. Sonho antigo realizado. Nos momentos que parei para respirar um pouco, podia ouvir as batidas aceleradas do meu coração. Cansado, mas feliz.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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