Crônicas

Domingo em construção

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Um e vários avisos dizem: “Proibida passagem de pedestres, estamos em obra.” Esse é o meu Rio de Janeiro, pela Av. Niemeyer; um infinito à esquerda de quem vai, o céu que esfumaçado encontra o oceano; um finito mas longo percurso vermelho novo, fosse amarelo, chegar-se-ia a Oz, com toda certeza. A nova ciclovia sobre o mar é digna da cidade maravilhosa. Um mundo mágico para quem descobre a paisagem por primeira vez, com o vento nos cabelos, óculos escuros, protetor solar e roupa de banho. A bicicleta, acompanhante, encontrará tantas outras no caminho que inaugura em breve. Por hora, enquanto as obras estão em andamento, um menino senta a beira do mar, lá no alto, e observa a paisagem. Um pombo faz o mesmo alguns quilômetros adiante. Para os que estão de fora, percebe-se a instalação de suportes brancos ao longo do caminho, qual será o material dos guarda-corpos?

Antigamente, no fomentado mercado das construções, pick ups antigas estacionavam na Central do Brasil, na Estação das Barcas e em outros pontos de chegada estratégicos da cidade, logo antes do sol nascer. Era assim que estavam contratados, após breves entrevistas, aqueles que erguiriam edificações de destaque na cidade, desde a fundação. “O senhor mexe com elétrica?”, “Já demoliu alguma parede?”, “Já embossou uma alvenaria?” Bastava responder “Já consertei a luz lá de casa” e ter a carteira de trabalho em mãos para dali fazer exames médicos e, antes do almoço ser um operário da construção civil. Muita gente progrediu e hoje é mestre ou encarregado em diferentes construções ou reformas pelo Rio de Janeiro, como o seu Jorge, que me contou um pouco da sua história nessa semana. Enquanto você se pergunta sobre os guarda-corpos da nova ciclovia da Niemeyer, o encarregado chama a atenção de alguns ajudantes, na reforma que atualmente uma jovem arquiteta gerencia na Barra da Tijuca.

Hoje os corpos não se guardam; desfilam sem pudores pela orla em elevado; em trechos poucos, percebem-se os equipamentos de segurança dos trabalhadores… surgem perfis arredondados de metal em meio ao piso; cordas que por eles passam e se enlaçam: são alpinistas à horizontal os homens que constroem a novidade. Em mim, a vontade de sair do ônibus executivo e me deixar render às tentações de Iemanjá. Um paraquedista aponta na direção do vento: quase posso tocá-lo, quase sinto o balançar de minhas madeixas passar por fresta nenhuma entre os vidros blindados pelo ar condicionado.

Enquanto estiver lendo essas palavras, já que é domingo, a arquiteta encontrará o encarregado para lhe solicitar serviços de um cronograma em atraso. O prazo sempre é curto na construção civil. Já a escritora poderá ser encontrada pela orla da cidade, aventurando-se em sua primeira viagem de Bike Rio. O prazo nunca é curto para encontrar uma nova crônica. Porque hoje, já é um novo domingo.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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