Crônicas

Dúvida

André Lucidi
Escrito por André Lucidi

Primeiramente, antes de contar essa estória, gostaria de pedir desculpas a você, leitor, por tê-lo deixado tanto tempo privado de escritos e leituras minhas. Não que eu me considere o único capaz de ajudar você a desopilar o seu fígado e manter o seu sorriso conquistador no rosto. Eu, humildemente, sei que não sou e, aliás, vejo-me obrigado a dizer que a concorrência anda bem grande. Eu sei que basta você, leitor, ver os noticiários da política nacional nestes últimos meses, para despertar aquela famosa expressão em sua face, algo como um “fala sério” sem palavras. Eu, como modesto comicozinho redator de risadas, também me sinto assim.

O fato é que o editor dessa nossa modesta editoração me deu licença para que eu esteja escrevendo um roteiro de cinema, que, para quem nunca escreveu um, é algo de facilidade enorme, estando na lista de coisas simples, logo, abaixo da mecânica de jatos, e acima da física quântica. Em breve, poderei falar mais sobre isto, no momento o segredo precede o suspense.

Em meio a essa escrita do roteiro de um filme, me deparei com uma dúvida. Fui eu acessar o moderno pai dos burros, pois o antigo era o dicionário Aurélio, cujo o filho mais estudado e moderno, vem a ser o Google, este mais jovial e robusto, capaz de despertar desejos infindáveis em qualquer ser humano.

O fato é que: ao escrever para um personagem mais, digamos, histórico, deparei-me com uma palavra que, sinceramente, não sabia se era português, latim, aramaico, ou era uma expressão usada em conversação de libras. O biógrafo escrevia sobre esse já falecido personagem que ele era uma “pessoa de muita marmota e afeito a carraspanas”. O jornal pesquisado em arquivo, tinha a data de 1932, e estava em microfilmagem. Para quem nunca viu uma pesquisa em que se tem de recorrer a microfilmagem, nem queira ver.

Marmota. Bom… Primeiramente, pensei que se fizessem pratos culinários a base deste roedor, o que, para mim, justificaria a ausência dele em abundância no campo e em nossas mesas hoje. Não encontrei nada no jovial que indicasse uma criação de marmotas, ou marmotas que fossem criadas para abate, assim como não encontrei nada sobre ele na culinária. Nenhuma receita e ainda por cima, carraspanas, como verifiquei, não eram algum tipo de raiz que surge em alguma árvore antiga não ceifada, como ocorre com as trufas.

Logo depois que minha parcela lusitana do sangue parou de circular em meu cérebro, veio a parcela italiana, essa mais despojada, de linguajar mais arrojado e, ao olhar novamente, pensei em marmota como sinônimo de dinheiro, e carraspanas como forma de algum negócio. Também não. Refleti um pouco mais, quando o sangue árabe circulou, embora, ele insista em induzir o pensamento ao preço da gasolina, achando que marmota poderia ser o apelido de um veículo antigo e carraspanas, uma expressão popular para algum tipo específico de rodovia, fazendo o personagem mais interessante, pois também seria um automobilista. Nada também. Já um tanto irritado e desiludido por não encontrar a resposta, deixei meu sangue índio e negro circularem. Se meus indicadores sanguíneos através dos antepassados europeus não funcionavam, talvez os tupiniquins e abolidos soubessem como me guiar, como fizeram no passado aos europeus. Não encontrei referência a tradução vinda de língua de nenhuma tribo, nem em nenhum dicionário afro-português de expressões populares. Nem um palavrãozinho que fosse.

Assim sendo, leitor, ainda estou chateado, e posso dizer que se não encontrar uma resposta sobre o que são essas palavras, levarei mais um tempo escrevendo imaginativamente e vou eu mandar tudo as carraspanas que marmotem. Assim mesmo, em pena.

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Sobre o Autor

André Lucidi

André Lucidi

Um cara de bem com a vida. Nada mais. Artista multimídia, que faz cinema e animação e literatura. Colaborador de Greenpeace e me considero eco-anarquista.

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