Crônicas

E assim se passaram 20 anos sem Vandré…

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

E assim se passaram vinte anos. Um tempo que a memória começa a deixar e lado as coisas que interessam, e em particular as menos interessantes. Um tempo em que a vida segue sem pegar atalhos, e os caminhos todos já foram percorridos. Todos conhecidos. Somente resta caminhar. Caminhar e cantar.

Vinte anos depois a terra Parahyba recebe um de seus filhos mais ilustres. Agora, aos 80 anos, com o direito de dizer o que pensa e sem pensar no que diz, ele voltou. As mesmas histórias. As mesmas perguntas feitas por repórteres que nada ou quase nada sabem da história dele.

Vinte anos depois, O filho do doutor José Vandrégislo e Marta, volta a capital da Parahyba, onde nasceu, para ser homenageado. Uma homenagem que todos viram no rosto cheio de rugas e caminhos sem a maior importância. Mas voltou sorrindo de tudo. Ou de quase tudo. Veio, especialmente, para receber o Troféu Aruanda de Contribuição ao Cinema Nacional, graças ao seu trabalho na trilha sonora do longa “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (1966).

Mas o público presente estava mais interessado em ver um dos nossos últimos ídolos da melhor “fase dos festivais” do verde-amarelo, e o compositor de “Pra não dizer que não falei das flores e Disparada”. Não veio como “cantor” nem como “músico”, disseram por aqui. O cinema. Foi a sua trilha sonora para o filme de Roberto Santos com base em conto de Guimarães Rosa, quem o trouxe até aqui.

Veio, como assim dizer, pelo “homem de cinema”, esse que nunca foi na verdade. Dera apenas uma pequena contribuição da qual pouco ou quase nada a respeito falou. Leu o conto e foi compondo parte por parte em cima do conto que leu. Pronto. Tocar no político? Nem pensar.

Os olhos pareciam livres das órbitas cercadas de rugas por todos os lados. Ilhas de rugas. Todas conquistadas com dignidade. Era uma luta entre o Geraldo Pedrosa e o Vandré que não conseguiu “matar”, como um dia confessou. “Vandré está morto!” Dissera um dia.

Vandré declamou então alguns poemas de sua autoria. O sorriso brotava no fim do último verso. Quase sempre. Trazia o olhar interrogativo. Era como se no final da leitura estivesse a perguntar ao grande público presente se gostou do novo Vandré ou não. E esse aplaudia o artista. O mito. O Vandré de “Disparada”.

Muitos dos presentes – muitos mesmo – não estavam nem aí para o “homem de cinema” que voltou a sua terra natal depois de vinte anos. Ele não vai cantar? Perguntou um fã de última hora, pois, como dissera, somente soube da história de sua “Para não dizer que não falei das flores” no ano passado. Estava ali para ouvir Geraldo Vandré “cantar as suas músicas”. Mas Vandré não cantou.

E, assim como esse jovem fã de sua – dele – história, Vandré deixou muitos sem saber o porquê de sua vinda a terra natal depois de duas décadas. Afinal, a sua trajetória artística, como dissera um dia, era secundária. Não voltaria a se repetir. Não negaria as muitas histórias – de que nunca foi preso e torturado, por exemplo – que insistem em tê-lo como personagem principal. Não raras vezes no papel de herói; outras de bandido, e outras ainda de “desmiolado”. Hoje, Vandré não precisa mais negar nem afirmar coisa alguma.

Depois de duas décadas ele voltou à terra natal e, como não poderia deixar de ser, encontrou-a muito diferente. Uma cidade cheia de arranha-céus, espantou-se. A beira mar da capital, apesar de ser uma das mais belas e preservadas do verde-amarelo, está “tomada por concreto”. Espantou-se de novo. No seu tempo, os olhos ficaram enormes, não existia nada disso. Apenas mar. Apenas praia.

As perguntas foram as mais simplórias. Muitos temeram “provocar” a fera. Feri-la. Outros, pela vez desses, não tinham nem sabiam como fazer isso. Provocar o Vandré. Não fizeram. Afinal, era ele maior homenageado da festa. Uma pequena homenagem para quem fez um concerto tão bom, que virou canção.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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