Crônicas

E lá se foi a negra colher latinhas no branco do céu!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Todos ou quase todos os dias ela passa pela minha porta. Os horários: pela manhã, às 7h, e a tarde, depois das 12h. Sempre os mesmos. Seu nome. Passei um bom tempo para saber. Achava-a – ainda acho – simplesmente curiosa. Uma negra magra e alta, e um chapéu velho de lã amarela desbotada na cabeça. Uns 70 anos, pensava, uma idade em que poucos ainda saem da cama para o trabalho.

Nos seu caso, porém, imaginava se não tinha a ver com algum tipo de doença. Não apresentava o aspecto de uma pessoa doente. Verdade. Imaginava-a descansando o corpo magro. Apenas. Uma negra magra, muito magra, carregando histórias que vinham de longe. Deve ter nascido em algum quilombo. Liberava as asas da imaginação. Uma avó cheia de quilombinhos ao lado. Um marido, também quilombola, no canto a fumar um cachimbo do mais puro fumo de rolo.

Dia desses, finalmente, o mistério que passava com ela pela minha rua, acabou. Chamava-se Josefa. Tinha 75 anos. E, para a minha surpresa, se nasceu em algum quilombo, foi lá pras bandas de Campina Grande, cidadezinha – nenhum preconceito – a cento e vinte quilômetros da Província das Acácias, que, pela quantidade de campinenses que passeiam por aqui, parece mais perto ainda. Teve doze filhos, diz. Mas, sem mudar o tom, a mesma alegria, acrescenta que somente dez sobreviveram. Sabe o “paradeiro” de seis, os outros estão por aí.

Fala baixo. Muito. Preciso esperar que carros passem para ouvir o que está falando. Saiu de Campina Grande ainda pequena, menina, quase criança. Veio para capital trabalhar em casa de família assim, “quase menina”. Trabalhou por muitos anos. Saiu de quilombo onde era livre, para ser escrava distante dele. Filhos? Esses vivem – sobrevivem – em casa. Enquanto ela, todos os dias, sai pelas ruas a catar o que sobrou da sociedade da qual fora escrava. Ficam como?! Todos homens feitos, jogando baralho e esperando que ela “traga a boia”.

São vários pacotes, todos restos, sobre um carro velho de mão. Pelo aspecto, os braços quase soltos do corpo, o andar desengonçado como o do Toinho Fumanchu, personagem folclórica do meu bairro Jaguaribe, parece mais velho do que ela. Sorri um sorriso banguela. Nada de fechar a boca com vergonha da banguelice. Nunca. Assim mesmo, diz, esse – bate nos braço do carro de mão – é velho companheiro! Sem ele, sorri mais ainda, não tenho como ganhar o pão nosso de cada dia.

Os filhos, faz questão de ressaltar, sentem vergonha. Nunca sairão às ruas com ela. Ficam em casa, esperando ela chegue com os restos de sacos cheios da sobra, e vazios de esperança. Todos coçando os sacos. Somente às vezes, esquecendo os sacos que coçam, alguns vem ajudá-la a separar o joio podre do trigo mais podre ainda que colhera nas portas dos “homens”.

Tem alguns bons, diz. Legais. Nas primeiras horas do dia, quando em suas portas passa, devagarzinho, como disse, para não fazer barulho e tirá-los do justo descanso, os sacos já estão amarrados. É uma alegria quando encontra, por exemplo, dez ou doze latinhas vazias de cerveja! E se forem daquelas feitas de alumínio, melhor ainda: é um poço de ouro na ponta do arco-íris!

O marido, assim como ela, é aposentado. Aposentaram-no. Foi uma grande ajuda. Fosse somente ela – alguma coisa está fora da ordem, penso – não daria para sustentar os filhos que ficam em casa com vergonha de sua – deles e dela – pobreza. “O pior é que tem dois com mulher!”. Netos? Tudo grande. Mas, infelizmente, como os pais, não “querem trabalhar”. Preferem “viver de luxo”, esperando que ela, nessa idade, traga o sustento.

O marido? Ajudou-a até enquanto pode lembrar. Pouco. Mas, agora, resolveu “pegar” uma fraqueza nas pernas e, pronto: “somente se levanta da cama para o banheiro e, quando tem, para a mesa comer”. Mas, enquanto Deus – olha para o alto e se benze – quiser e lhe der saúde, vai continuar “trabalhando”. Eles não estão nem aí, repete, mas não vai deixar os “netos morrer de fome”.

– Eu moro bem ali, aponta com o seu dedo de agulha, se quiser ir lá pra gente bater mais papo, pode ir. Será uma honra!

Olho na direção apontada pelo dedo. Tô vendo. É um quartinho pintado de um amarelo-sem-cor. Qualquer dia eu vou, prometo.

– A foto está boa?

Pergunta, enquanto, tentando um melhor ângulo, aponto a máquina em sua direção. O sol não favorece e o chapéu que usa esconde o seu rosto. A sombra no seu rosto aumenta a sua escuridão. Não quero lhe pedir que tire o chapéu. Com ele, o chapéu, ela fica muito bem: uma negra com um chapéu que aumenta a sua negritude. Posso tirar uma foto da senhora ao lado do seu “amigo fiel”? Ah, claro. Tá bom? Pergunta-me. Não estava. E agora, tá bom? Tudo bem, tá legal. E se despede dando aquele sorriso banguela meu conhecido.

Qualquer dia, deixo a promessa, irei a sua casa conhecer os filhos e netos. “E o meu marido!”, acrescenta. Tudo bem, respondo-lhe, conhecerei todos. Pergunta mais uma vez se a fotografia saiu boa. Saiu. Não tem desgraça nem pobreza. Nela. Nelas. Estou diante de uma mulher. Uma bela mulher. Esquece o carro de mão. A preocupação agora é a foto. Não quer sair feia na fotografia. Diz. Sorri.

Ufa! Foi bom que descansou um pouco. Diz esquecendo, agora, a foto em preto e branco. Mas preta… O carro estava muito pesado. A colheita foi boa. Muito papel e latas vazias de cerveja. Tem outras coisas que não teve tempo de olhar. Do jeito que encontrou o saco, amarrado pela boca, nó apertado, pegou e colocou nos “ombros do amigo”. Tava pesado! Os filhos fazem falta. Se um deles, pelo menos um, a ajudasse, seria um paraíso. Teria comida por uma semana sem precisar sair de casa.

“Mas o que fazer?” pergunta enquanto os braços finos pegam nos finos braços do carro, se eles têm vergonha de ser pobres?”

Todos os dias, na saída para o “trabalho”, diz para os filhos que “vergonha é roubar”. Embora, acrescento, existam por aí milhões de ladrões que já nasceram sem vergonha e roubar, para eles, é a coisa mais natural do mundo. Nem sentem que estão roubando. Ela sorri. Mas “Deus me livre de pegar nas coisas dos outros”, diz. Isso não vai fazer nunca!

Olha mais uma vez para o céu, e sai levando o seu amigo carro. Ou melhor, sendo levado por ele, balançando de um e lado o outro. Mas, nessa despedida, a certeza de que nunca será presa por roubar. Delação premiada? Sem delação. Um saco cheia de latinhas vazias de cerveja seria um grande prêmio para ela.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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