Crônicas

E vem o Papai Noel com um saco cheio de presente e nenhum futuro

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Sempre coloquei nessa cabeça cheia de palavras e pensamentos, esses mais que palavras, que só escreveria quando tivesse realmente o que escrever.  No dia em que a saudade das letras impressas fosse tão grande quanto o prazer que sinto em ouvir o canto do meu graúna. E esse não escrever meu não se devia ao fato de nada ter para escrever. Sempre tenho. Temos.  Mas era a saudade que não havia chegado e a coerência que insistia em continuar fazendo calo no meu dedão do pé.

Escrever por quê? Para quê? Perguntava a esses botões hoje cada dia mais osso do que carne. Quanto é que valia o – ou valei – o que eu estava escrevendo? Escrever para agradar a quem? A mim com certeza não seria. Para agradar aos donos das minhas palavras escritas? Também não.  Sou um sujeito sem uma só necessidade de agradar a quem me paga. Por quê? Simples: por estar recebendo algo em troca do que eu bem poderia ser de graça.

Não escrevia para mim. Apenas. Escrevia para os veículos que me pagavam para isso. E, por isso mesmo, tirava-me todo esse prazer de que falei aí em cima. O canto do meu graúna? Sem comparação… Achei e continuarei achando que imprensa é oposição. Apenas. Não consigo mesmo imaginar este “Malabarista de Palavras” escrevendo editoriais em que qualquer bom leitor perceberá na primeira leitura que estou seguro pela corrente do dono do jornal.

Imaginem-me sorrir e escrever sobre esse sorriso falso, por exemplo, provocado por uma piada sem graça de uma autoridade de plantão somente porque ela paga por aquilo que escrevo. Achar que o humor pode ser usado para defender esse ou aquele palhaço que insiste em sorrir vendo o circo pegar fogo, só porque o palhaço é ele. Não, Escrever assim nunca fará o gênero deste escriba.

Mas, perguntam-me os amigos, como sobreviver fazendo oposição aos que pagam para ver os teus – meus – escritos em seus veículos de comunicação? Em seus – deles – jornais de páginas e páginas de publicidade sempre bem paga e comumente mal feitas? A fome de muitos, felizmente não a minha, essa que um dia a minha velha e saudosa e honesta mãe dissera que o sono alimentava é braba. Eu sei. A barriga pede socorro. A vaidade alimenta a mediocridade de muitos. Também.

Mas como tudo nessa vida de muitos Zé Dirceu e poucos Faustos (Wolff) requer um pouco ou um muito de sacrifício, acho que o jornalista, o verdadeiro, também poderia sacrificar-se um pouquinho mais para ter o direito de dizer o porquê de não gostar de jiló e não engoli-lo – garganta adentro – só porque foi servido na mesa do patrão. Sentiram? Isso mesmo: estou de saco mais cheio que os sacos desses Papais Noéis contratados pelos donos de lojas para garotos propagandas de seus presentes sem nenhum futuro.

Triste constatar. Mas eles fazem isso. Muitos. Alguns colegas – meus não, de outros – continuam por aí atropelando e sendo atropelados pelo direito de elogiar os discursos anacrônicos e reducionistas de empresários que lhes pagam para isso. Outros mais sutis, porém não menos vergonhoso, abrem generosos espaços em suas colunas sociais para expor em cores tristes essas figuras fellinianas do nosso high-socyte. Tudo pago. Nenhuma dúvida.

Não entendo a imprensa como não sendo de oposição. Se não houver oposição não é imprensa, mas um amontoado de palavras. Mistura de fruta pão com bofe. Bodega de secos e molhados. Millôr estava e continua certo. Se o jornalista não pode dizer o que sabe e deseja, o que ele escreve não é jornalismo. É apenas o compromisso com os donos do jornal que compram os seus produtos escritos. Escrever apenas para agradar aos donos de jornal é como desejar ser humorista fazendo humor a favor. Não é jornalista que assim procede. Não é humorista quem procede assim.

S e o profissional da imprensa não pode expressar a sua – dele – opinião livre e descompromissada daquilo que pensam os seus patrões, uma vez que dependem dessa dependência pra sobreviver, melhor é pecar pela omissão.   George Orwell acertou na mosca, sem precisar matá-la: “jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

Assim, se não quiserem fazer jornalismo, escrevam sobre a influência dos raios solares sobre a menstruação da borboleta ou a importância do pisca-pisca do vaga-lume para iluminar a escuridão que reina dentro do formigueiro.  Mas jornalismo a favor, nunca! A favor só o vento que sopra macio na minha Ponta do Seixas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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