Crônicas

Easy riders

Anselmo Vasconcellos

Easy riders. Andavam pelas estradas e eram bardos provocadores. Artistas corajosos e eloqüentes. Itinerantes músicos de instrumentos mouros. A Rabeca, por exemplo. Um antepassado do violino.

Enalteciam as mulheres, com composições dedicadas ao “Espírito Feminino” e, claro, suas manifestações físicas, criando um movimento que mudaria o conceito de relações amorosas entre mulher e homem. Apenas quatrocentos indivíduos, prova de que um pequeno grupo pode mudar o curso da história.

Esses músicos de rua, vindo de baixa classe social eram os trovadores que cruzaram o sul da França, a Espanha mediterrânea e o norte da Itália entre 1100 e 1300, séculos conhecidos como Alta Idade Média. Este nome trovador vem do árabe, seria aproximadamente “inventor de canções”. Entre eles algumas mulheres, as troveiras, as primeiras mulheres a fazer poesia, atestam registros.

Viveram concentrados na região de Provença. O amor pela mulher, seus cantos, cresceu até o ponto de “devoção religiosa”. Eram patrocinados por damas nobres que os levavam em suas viagens e permitiam assim suas apresentações nos palácios. Isso bombou ao ponto de logo seduzir os ouvidos da Europa.

Mas eram igualmente brincalhões. Faziam uso de muito humor e erotismo, descontraiam esses ambientes e a capacidade de rir de si mesmo aliada à subversão das convenções e da moralidade divertiam seus patrocinadores. Livres pensadores com idéias originais e pessoais a respeito de política, religião e negócios. Eram tolerados? Mais que isso: foram incentivados por príncipes e princesas de uma nova nobreza. Pesquisando sobre a profunda influencia destes sonhadores na contracultura dos anos 60, eu recortei alguns apontamentos de leituras:

Em The Troubadours, Robert Brifault analisa: “O trovador açoita todas as formas de egoísmo, trapaça e falsidade, tanto nas mulheres quanto em senhores de súditos, e sua revolta dá a esse poeta arcaico um sabor moderno”. Outra:

“Os trovadores foram expostos às influências poéticas e musicais mouras, transmitindo-as a toda Europa Ocidental. Agindo assim, os trovadores abriram um canal de inseminação cultural que desempenharia vários papéis importantes nas rápidas mudanças que ocorriam na cristandade européia”

Um papel importante foi na transformação do conceito de união matrimonial por interesses econômicos e políticos de família. O amor árido da cristandade foi substituído pelo romantismo de que a união pudesse ser uma escolha do coração. Isto se opunha diretamente a séculos de sólidas tradições à força de convenções sociais.

“graças aos trovadores, hoje as parcerias ocidentais não são arranjadas e impostas por interesses sociais, mas determinadas (pelo menos idealisticamente) entre duas pessoas que escolhem uma à outra”. Diz outro escritor:

 “Uma revolução de enorme alcance. Aqueles poetas arcaicos que hoje ninguém lê (…) escreveram suas obras para séculos de posteridade e cravaram bem fundo em nossas mentes a característica fundamental de nossa civilização”

Imagine isso na época logo após a Cruzada onde a idéia de união atrelava-se a de reprodução da espécie! Foi o ato de criação moral mais original da Idade Média? Descubro e corro para anotar aqui:

“Além de outros aspectos da influência do movimento, a herança de composição dos trovadores, sozinha, mudou para sempre a face da poesia e da canção no mundo ocidental. Ao longo de dois séculos eles praticaram, melhoraram, e refinaram um estilo de verso e canção que se tornou fundamental para muitos desenvolvimentos posteriores da literatura e da música folclórica e popular do Ocidente. A linguagem do trovador está, por exemplo, na origem da balada de amor em todas as suas muitas formas.”

Mas eis a reação engendrada nesta época de “heresias” em que se tinha transformado esta pequena região, a Provença medieval, onde os trovadores se desenvolveram. A Inquisição no final do século XII persegue o movimento dos trovadores. Os religiosos declararam que a poesia em si era um pecado. Miraram sua força militar contra os nobres que patrocinaram e tomaram suas propriedades e muitas vezes os executaram.

Sem organização ou estruturas hierarquizadas os trovadores foram facilmente alvejados por esta estratégia das autoridades religiosas. Na França a poesia foi propositalmente enterrada! Condenada ao esquecimento

Mas o surpreendente acontece na história. Justamente a mulher foi quem não permitiu o desaparecimento desta arte. Eleanor da Aquitânia foi a grande defensora da cultura dos trovadores. Tornou-se rainha e por sua força e de outros caminhos a influência dos trovadores se espalhou e se reinventou como matriz da música e da poesia ocidentais.

De volta a minha pesquisa sobre os uivos contraculturais dos beats, nos anos 60, encontro os herdeiros deste movimento. Gente como Bob Dylan, Donovan, The Byrds, Jefferson Airplane criaram um audacioso projeto musical que, no declarado estilo trovador, empreendeu um levante popular contra o conservadorismo.

“Essa revolução no som pode ser historicamente tão importante quanto movimento original dos trovadores, na medida em que deu à luz uma linguagem rock hoje ouvida diariamente em todo mundo”

Diante desses apontamentos a pausa, para o entendimento na tal pesquisa para um personagem. Procuro um antigo vinil do Gilberto Gil. Ponho no pick-up e agora ouço:

“(…) Quem sabe o super homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história,
Por causa da mulher.”

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Sobre o Autor

Anselmo Vasconcellos

Anselmo Vasconcellos

Ator, diretor e dramaturgo.

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