Crônicas

Ecos do Rio de Janeiro

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Desde antes da época das gravuras de Debret, os pregões dos ambulantes de rua fazem parte da história da cidade.

Certas áreas do centro do Rio são um verdadeiro deus nos acuda. Nos locais de comércio popular, a clientela é disputada no grito. Literalmente. Por vezes, a algazarra é tanta, que a gente nem escuta mais.

Nos bairros ainda se apregoa de forma civilizada e gaiata, como manda a tradição. Outro dia, um feirante chamava a freguesia aos brados de “Ladies and gentlemen, boys and girls”, e continuava o discurso em inglês afirmando que vendia a melhor fruta do pedaço. O homem possuía um vozeirão de cantor de ópera, e, não satisfeito com uma única língua estrangeira, alardeava a qualidade de seus produtos com frases semelhantes em francês e espanhol, todas aprendidas de ouvido, e ditas com uma pronúncia bem aceitável, melhor do que a de muita gente que faz cursinho.

Na praia também se apregoa bastante. Conheci um vendedor de mate que usava o clássico “Moça bonita não paga, mas também não bebe”. Não sei por anda o sujeito, mas a carioquíssima combinação de mate com biscoito Globo continua a cara do Rio, apesar da concorrência feroz que enfrenta. Há gente apregoando de tudo: queijo coalho, chapéu, canga, empada, sorvete, maiô, amendoim, bijuteria, óculos, sanduíche, pastel, cerveja, suco, camarão, discos, açaí, salada de frutas, espetinhos.

Na minha rua, na Zona Sul, de vez em quando passa o caminhão da pamonha: “Pamonha, pamonha, pamonha fresquinha”. E, nos dias de semana, por volta da hora do almoço, não falha o moço das quentinhas: “Ooooolha a quentiiiiinho”. Assim mesmo, a quentinho, sem concordância, o que chama mais atenção ainda. O carro da pamonha usa alto-falante; o rapaz das quentinhas, que anda a pé, usa o gogó mesmo.

Igualmente bem equipado no quesito som é o caminhão do ferro velho: “Compro ferro, compro cobre, compro chumbo… geladeira velha, fogão velho…”. Certa ocasião, resolvi trocar a máquina de lavar roupas por uma mais moderna, e perguntei-lhes se estariam interessados na antiga. Ofereceram-me a indecorosa quantia de cinco reais! Não tive dúvidas: chamei o Exército da Salvação, que retirou a máquina usada e levou consigo um artigo bastante aproveitável. Depois dessa experiência, quando o micro-ondas quebrou, sem possibilidade de conserto, joguei fora sumariamente. Se algum porteiro ganhou cinco reais com ele, até hoje não sei.

Na minha rua também passa o “Vaaassoooreeero”, uma figura carregada de vassouras, rodos e, às vezes, espanadores. Vende barato, já comprei uma vassoura. Não aconselho: desfez-se em pouco tempo, depois de espalhar piaçava por toda a casa.

Vez por outra ainda ouço “Gaaarrafeeero”, mas é raro. Mais raro ainda é o “Fiiiiiiiiiuunn” agudo com que os amoladores de facas e tesouras se anunciam. Ao invés de apregoar o serviço, eles produzem esse som característico encostando um pedaço de metal à roda de pedra que amola os objetos. Quando eu era criança, todo mundo conhecia seu assobio metálico, mas agora pouca gente amola facas ou tesouras na rua.

Outro som que povoou o Rio da minha infância foi o da matraca dos vendedores de pirulitos de caramelo, aqueles em forma de cone, embalados em papel manteiga, espetados em uma tábua. Quando a garotada ouvia o som da matraca era um alvoroço. Desapareceram, porém o sentimento sobrevive nos carrinhos de sorvete, ainda presentes nos bairros mais calmos, com os ambulantes tocando um sino ou uma buzina para avisar que estão no pedaço. Na era digital, quem diria?

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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