Crônicas

Ela vive morrendo de medo da morte

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Por  Humberto de Almeida*

(Não é da morte que temos medo, mas de pensar nela – Sêneca).

Tenho uma colega que tem medo da morte. Um medo, como dizemos por aqui, da gota serena. Pavor! Isso. Ela tem pavor da morte.  Tanatofobia. Esse é o seu – dela – mal. Ela deixa que Tânato tome conta de sua vida.

Tânato (Thanato) é o Deus da morte. Nascido em 21 de agosto, segundo a mitologia que cuida dos “deuses”, essa grega, nesse dia em que comemora o seu – dele – nascimento leva muitas vidas para o seu reino. Pausa. O mês de agosto vem aí. E com ele, o mês de agosto, o dia 21. Não tenho medo deles: dia, mês e Tânato.

Não tenho medo do mês de agosto. Nem de Tânatos. Repito. Às vezes tenho medo da vida. Não pavor. A morte não me mete medo. Se medo eu tiver é o de morrer. A morte, essa, aquela figura de capa, capuz e foice na mão, não me mete medo. Morrer, porém, embora não pense na morte, às vezes me dá certo medo. “Certo”? Errado! Todo medo é um erro.

Mas a verdade é que de morrer também não tenho medo. Tristeza. Sinto-me triste ao saber que irei morar numa cidade em que não posso ouvir Beatles nem ler Machado de Assis. Dá-me uma tristeza danada quando nessa morte eu penso. Trocar de roupa e se mudar para outra cidade sem antes pegar o meu chapéu no cabide e pagar a conta do bar é triste. Muito.

A minha colega tem medo mesmo é da morte. Morrer, trocar de roupa e se mudar para outra cidade desconhecida. Isso! Talvez seja esse o seu medo: o desconhecido. Mas, se esse medo ela tem, confessado medo, escolheu uma profissão que leva alegria às vidas dos conhecidos e mais ainda desconhecidos seus. Parece contraditória. Mas não é.

A minha colega que tem medo da morte é uma cantora. E suas noites não raras vezes são trocadas pelo dia. Uma cantora da noite. Assim, se durante esse – o dia – ela pensa na morte, cantando a noite esquece esse medo e vive. Mais: faz com aqueles que a escutam, os vivos, esqueçam que um dia vão morrer.

Apesar desse confessado medo, embora sabendo que todos morreremos um dia, a minha colega não aceita morrer no meio desses. Bela, bonita e morrendo de medo da morte. Sabemos que um dia iremos morrer. Todos. Nossa única certeza.  Mesmo assim não há esse desespero nos rostos das pessoas. Elas não se desesperam. Ela? Não. A minha colega vive desesperada pela certeza da morte. Melhor: não vive.

Uma verdade verdadeira, como diria o bom Joel Silveira, é que aqueles que vivem pensando na morte, sem “S”- leia-se “sem exceção” -, morrerão mais vezes do que aqueles que nela não pensam. A minha amiga, se pudesse, fugiria dela, da Indesejada das gentes, como dizem que o diabo foge da cruz. Até mais rápido que esse.  Não tenho dúvidas. Nem ela.

Segundo ainda os estudiosos da morte, os tanatologistas, estudo esse que nunca me interessou, porque sempre pensei na vida, em viver, essa “doença”- o medo da morte – ocorre geralmente nas idades entre 4-6, 10-12, 17-24 e 35-55. A minha amiga cantora, mesmo que nunca tenha lhe perguntado a idade, pois essa não me preocupa, nem a minha, está nessa faixa última. Eu também. Mas nunca tive medo dela. Isto é, da minha amiga cantora não – da morte.

Os tanatologistas (epa!) dizem que são muitos os motivos que levam um ser vivo e pensante a pensar na morte. Não tenho nenhum. Nem um eu tenho. Não penso na morte. Não tenho tempo para isso. Vivo e penso na vida. E assim vou seguindo. Vivendo enquanto ela não me pega de surpresa e, num golpe baixo, me ponha debaixo do chão. Pois é. Enquanto ela – a morte, não a minha amiga cantora – não esbarre comigo numa esquina da vida, assistindo ao meu filme preferindo, tomando uísque e ouvindo Beatles, Beatles forever, vou vivendo. Vivo a minha vida como se essa fosse a única que tenho. A minha colega também sabe que só tem uma. Acho. Por isso mesmo o medo, a fobia de perdê-la.

Nessa altura do campeonato da vida, se a minha colega não estiver ainda na horizontal, sobre um divã, confessando o seu medo na vã tentativa de que aquele que a escuta esse medo lhe tire, não vai tardar a estar assim. Afinal, cada um tem o sagrado direito de ter ou não medo de algo nesta vida. Morrer do próprio veneno. Pausa. Ela canta. Porém, mesmo assim, cantando, a minha colega não consegue espantar esse mal. Uma pena, pois, aquele que canta, sem S, deveria espantar todos os seus males.

Só espero que um dia, esse um distante dia, morrendo para viver eternamente, como muitos acreditam e ela talvez não, a minha colega cantora mude de vida. E assim, nessa mudança, acostumada com a nova vida que leva, entediada de eternidade, comece a perder o medo de voltar e viver por aqui tudo outra vez. Sem medo da morte.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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