Crônicas

Ele caminhava no ritmo de uma Marcha com Cueca

Vandré “revolucionou” o país com a sua “Pra não dizer que não falei de flores”
Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Nesse dia ele vestia uma cueca que mais parecia uma calça enxuta de criança. Disse assim mesmo: calça enxuta.  Melhor: falou “calça-enxuta”. Uma palavra que saiu de sua boca composta. A calça ligada por hífen a enxuta. Uma calça composta. Sabia o que ele estava querendo dizer. Sabia – sei ainda – o que é uma calça e também quando ela estar enxuta ou não.

O homem não corria, fez questão de esclarecer.  Nesse dia o homem caminhava.  Se cantava? Não. Estava apressado. Era assim como se estivesse ameaçado de perder o Trem das Onze. Ou o trem de hora outra qualquer. O importante para ele era o trem. Só não queria era continuar na estação. Parado. Enferrujando. Sabia muito bem que todo trem parado tem muito de tristeza.

A hora? Não me disse. Mas, se a memória não me falha, como tem acontecido algumas vezes nessa altura do campeonato, assim por cima, falou que o fato se deu à tarde. Tardezinha. Essa “tardezinha” ficou na memória. Na minha. A hora mesmo? Entre as dezessete e dezessete e trinta. Por aí.

A princípio, disse que não sabia quem era o homem que usava uma cueca parecida com uma calça enxuta. Sabia – via – apenas que homem não corria. Andava rápido. Era como se estivesse naquele passo de quem participa de uma marcha. Mais calcanhar que ponta de pé. Sorriu. Sorriu muito. Ora, via Um homem sério como soldado de polícia num desfile de Sete de Setembro,  caminhando pelo centro da capital da Parahyba e vestindo uma cueca parecida com uma calça- enxuta. Pausa. Assim mesmo, ele falou “calça-enxuta”.

Mas o homem não caminhou tanto quanto desejava. Assim ele achou. Decidido, olhar fixo no caminho, o homem parecia querer caminhar até o seu sapato pedir para parar. Pausa. Soou cacófato, senti. Mas foi assim mesmo. Era como o homem daquele belo poema do Chacal, o “Rápido e rasteiro”. Se o sapato pedisse para ele parar, tudo bem, pararia.  Mas, em seguida, tiraria os sapatos e caminharia pelo resto da vida.

O homem, porém, caminhou pouco. E caminhava com sua – dele – cueca com pose de calça enxuta, como se estivesse vestindo o melhor e o mais composto dos ternos. Aparentava uma naturalidade espantosa. Por isso, o espanto era geral. Tanto que a polícia, sabendo daquele desse espanto, se deslocou à passarela onde o homem de calça enxuta desfilava. Vamos prendê-lo! É um louco! Disse um soldado que desceu rápido – e rasteiro como o poema do Chacal – da viatura que ficara atravessada na passarela do homem que caminhava. Eis que repente, sem lembrar aqui o “mais que de repente”, outros homens e mulheres que estavam presentes, mais mulheres que homens, gritaram em defesa do homem da calça enxuta.

Perguntei-lhe um pouco a respeito do homem. Sinceramente, respondeu, nada mais ouviu. Ou melhor: ouviu apenas quando o nome de Geraldo Vandré foi gritado por um das pessoas que chegavam. Homens e mulheres. Ele sabia quem era Geraldo Vandré. É ainda hoje vendedor de CDs e LPs no centro da capital. Entre esses, LPs em especial, vendeu um ou dois de Geraldo Vandré. Só não sabia, ressaltou, era que esse seria o seu primeiro e último contato com o autor de “Disparada”. Pausa. Não falou “Um pequeno concerto que virou canção”. Não conhecia. Ah, falou também no autor daquela música que fala em “caminhando e cantando e seguindo a canção…”.

Sabendo agora quem era o “homem da calça enxuta” ou não sabendo, mas intimidados pela fama que disseram ele ter, esse homem da calça enxuta, o “homes” (sic) relaxaram. Nada de prisão! A prisão em que ele há muito se encontrava já era o bastante. Pior: era uma tortura viver numa prisão assim. Por isso mesmo, nada de levá-lo para outro canto que não fosse a casa dele.

O homem da cueca parecida com uma calça enxuta, fez questão de ratificar, era mesmo o compositor/cantor Geraldo Vandré. Somente mais tarde é soubera ser os “gritantes” em defesa de Geraldo Vandré, que eram amigos e parentes e… Outros. Esses “outros” alguns fãs que identificaram o autor da (agora, sim) bela “Pequeno concerto que virou canção”.

A história faz tempo que aconteceu. Segundo ele, muito distante daquele dia em que Vandré “revolucionou” o país com a sua “Pra não dizer que não falei de flores”. Agora, porém, não cantava. Caminhava. Apenas. E naquele dia usando uma cueca que parecia uma calça enxuta.

Até quinta, Isabelas!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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