Crônicas

Em casa da minha mãe

Adalberto dos Santos

Escrevo na cozinha da minha mãe, em Cajazeiras, na Paraíba. Aqui deste lado dos trópicos, durante o dia, não corre vento, sequer um raio de brisa depura as noite altaneiras do luar das caatingas. Parece um sonho, cenário de sonho. Há tempos desfigurou-se a face colorida do ambiente sertanejo após a queda das águas celestes. Se o ar se atreve a bolinar as poucas folhas das árvores, surge também um mormaço indiscreto que mortifica os ossos. O cristão não aguenta sem reclamar. Deita no chão de cimento, vai ao pote mil vezes durante a tarde, procura a melhor sombra entre o oitão dos largos e altos casarões mais antigos do lugar. É a luta desigual entre o sertanejo e as condições naturais. Aquele, um adepto das acomodações, um insurgente das variações climáticas que o assola sem piedade a cada quadra anual. É a luta pela sobrevivência e o estigma de morar na porta de entrada do inferno. O sertão em tempos sem chuva é a morada do diabo.

Mas estou em casa de minha mãe e aguardo a resolução de problemas pessoais. Enquanto as coisas não acontecem, vou numa rotina que pouco me agrada. Desde quinta-feira, acordo cedo, e logo faço pequenos passeios pelas ruas sujas e sem graça da cidade. Visito ali um amigo, aqui um conhecido distante. Lembro (e não faz tanto tempo) do tempo em que todo dia passava esse mesmo caminho. Tenho o sentimento que deprimia o caminheiro. Detestava passar entre as casas de comércio, dobrar essas esquinas nos primeiros raios da manhã. Enquanto caminhava, testemunhar ninguém dizer bom dia, como vai, tenha um ótimo trabalho. Depois, passe cá mais tarde para trocarmos um dedo de prosa.

Está feia a cidade, como jamais esteve. Seu Açude Grande, a imensa roda de água que liga a urbe ao passado de glória dos primeiros habitantes, não mais comove o coração. Perderam nele a magia e a ternura de um símbolo histórico importante que dizia coisas sobre lazer e memória para todo o sempre. O açude, a água dele que se bebia para o eterno feitiço de amar a cidade, é como se não existisse. Nele se afogaram a devoção e amor pela terra. Nele está enlameado qualquer sentimento. Tudo, a partir dele, não faz sentido. É um submundo de esgotos e mágoas. Ainda que faça a decência de resfriar o clima que estressa o solitário neurastênico, aos meus olhos perdeu a beleza. Esse seu ar de titã assevera a toda hora que esta cidade jamais me amou.

Ao fim da tarde, recordo o conversar nas calçadas; um dos dados mais vivos dessas bandas sertanejas. Pena que a feiúra da cidade não deixa que os versos de Vinicius atravessem a conversa. Hoje, as casas não são tão lindas. São feias, assim como são feios os políticos e as polacas, os bares e as praças, os que vão à missa e os que rezam no templo. São feios os homens e as mulheres, as plantas e os animais. Por fim, tudo está pouco atraente. Nada agrada. Aqui, parece que ninguém mais deseja que nada preste. Deram fim a tudo. Adeus àquela cidade que pintei muitas vezes com tintas bonitas e que não borravam.

À noite, ao menos, as crianças correm vivamente. Como em todo lugar elas acendem a esperança e dão à alma uma riqueza de mistérios que ninguém explica. Enquanto uns tantos veem as novelas, elas expressam com gritos de alegria que apesar de tudo talvez nem tudo esteja perdido. Conseguem tirar essa sisudez grosseira. Arrancam um pouco essa tristeza de não se amar mais a quem tanto se amou. Essa tristeza que só não é maior porque estou em casa de minha mãe, e aqui me sinto protegido do restante da cidade.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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