Crônicas

Em defesa do palavrão

André Lucidi
Escrito por André Lucidi

Palavrão. Palavra em vão. Uma pala de um alavrão. Uma vala de uma pala que vão apalavrar. Em dias como os de agora, traz reflexão sobre a palavra. Deixa um vão em seu aumentativo, que vem a adjetivar algo que já é totalmente subjetivo. Se o assunto for futebol, por exemplo, faltam alguns. Se for política, surgem alguns novos. Se for religião, melhor cuidar da garganta com um melzinho e limão.

Incontestávelmente ele dever estar circulando no mundo, desde o surgimento dos primeiros grunhidos do ser humano no tempo das cavernas, quando após entrar adentar uma caverna em dia de chuva, nossos antepassados pisavam em algo disforme e gritavam arghtfuthhh, e o arghtfuthh espalhava todo seu potencial desaglutinador. Editores de livros pedem que não sejam usados em narrativas literárias, pois de alguma forma, o leitor se sente ofendido e acha que a literatura com a qual se deleita pode não ser a melhor. Bom, quem dentre vocês, leitores, quem nunca proferiu num momento de angustia, de raiva, de um momento dissonante, de desabafo, algum palavrão acompanhado daquela exclamação oculta que somente nossos ouvidos interpretam? Eu pessoalmente, sou a favor dele.

Estudos feitos pela Brasileiro & lusitano informam que não foi o poeta Bocage o primeiro a se utilizar deles de forma implícita. Antes dele, Tásos, na grécia antiga, já o deixava porvir e provir. Uma vez que a sacanagem já acontecia explicitamente havia muito tempo, apenas não a deixavam ser simplificada em uma palavra unicamente, pois estava sempre acompanhado de medidas de esforços e mentiras, que somente os mais criativos podiam imaginar. Optaram pela imagem através de pinturas, gravuras e estátuas, que ainda hoje são vistas em programas de tv, nas madrugadas mundo afora. Sim, todas trazem um palavrão embutido. Admita leitor, você também já proferiu um, mesmo que mentalmente, assistindo um programa destes.

Então, por que não incorporar ao nosso vocabulário um estudo mais significativo sobre a importância fisio-psicológica do palavrão em nossas vidas e começar um levantamento de todos existentes em nosso país e de nossas linguas. Seus significados, seus sinônimos e, deixar o nosso vocabulário mais florido e fluídico, fazendo com que possamos economizar espaço e fôlego em nossas palavras e em nossas escritas. Por exemplo, um memorando em uma empresa, na qual o funcionário responde ao seu chefe, depois de ficar oito meses em tratamento de coluna por carregar armários e é demitido. Caso ele escreva: “prezado chefe, resguarde um convoluto em vossa compleição”, não transmitirá toda emoção do momento e podem pedir a ele que continue trabalhando, por deter um aprimoramento lingúistico maior até que o do próprio chefe. Também não pode ser a solução. Não visualizo as torcidas organizadas dos estádios gritando “progenitora torpe” para um juiz que não marcou um pênalti. Casais em momento íntimo, misturando palavras de amor e frases de efeito, como vem amor, vem….abocanharei com lisura seu destemido erguido!

Se um dia o amor foi assim, com certeza explicaria as condições do mundo hoje.

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Sobre o Autor

André Lucidi

André Lucidi

Um cara de bem com a vida. Nada mais. Artista multimídia, que faz cinema e animação e literatura. Colaborador de Greenpeace e me considero eco-anarquista.

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