Crônicas

Em nome da Rosa

Adalberto dos Santos

Videmus nunc per speculum et in aenigmate,
e a verdade, ao invés de cara a cara,
manifesta-se deixando às vezes rastros
(ai! quão ilegíveis) no erro do mundo.
(Adso de Melk)

“Você escreve difícil, toda palavra sua é dita em sombra. E ao mesmo tempo seu texto é cheio de luzes, clareia o ao redor das coisas; fico feliz, principalmente feliz quando o leio, porque passo a ver diferente, de mim fico distante e ausente, de você mais perto – mas é como se estivesse cega; você me cega, sabia? Aquilo que você disse sobre a beleza é enormemente sério. Acredito, mas vá que ficou difícil. Fiquei a um tempo vendo melhor e depois fiquei como se nunca houvesse visto as coisas, nadinha. Por que isso acontece? Por que você disse ‘por dentro dos olhos o amor esconde a mais linda armadura’? Cuidado com isso. Cuide as palavras. Fale menos, se puder; diga pouco, de um pouco dessas coisas que costuma dizer mas dizendo simples. Por favor, não nos confunda”.

Foram palavras da Rosa, vizinha e leitora. Reclamação não da amiga, mas da leitora mesmo, exigência cara ao autor porque este anda dizendo nas frases “o que não consegue dizer”, segundo ela.

Está certa, ultimamente devo ter escrito muita bobagem e, além de tudo, por vaidade, ter ensombrado as palavras. Talvez causa do arranjo que dou a elas, as palavras, da pretensiosa mania que tenho de não falar tão claro, de aproveitar por vezes que roupas diversas sirvam às mesmas palavras: metáforas, combinações semânticas pras sugestões e pro meu ego de escritor. Ou pior, talvez tenha sido a escolha das coisas sobre as quais ando refletindo.

Alguém já disse que os assuntos comuns nem sempre são o centro da minha crônica, ou seja, às vezes extravaso em arroubos egoístas os mais feios e por isso, com minha incompetência típica para a escrita, não acompanho o gosto do leitor. Leitor de crônica é leitor comum e deseja que assim o tratem, quer sua vida no texto, quer se ver e quer me ver frente a frente, como numa conversa. No bate-papo diário, não pode haver dizeres difíceis, as coisas para a comunicação é o que está no limite do entendimento das duas pessoas conversando, eu e você, por exemplo. Daí a Rosa ter dito: “quase não importa o que você fale, importa que a maioria gostamos – mas, ainda mais importante, é que nos entendamos o mais facilmente. Só não fale do que eu não sei, ou falará sozinho, sem mim”.

Um pedido apenas? Na verdade, uma exigência. Rosa, consciente ou não, me cobra que a matéria da crônica seja, em certo sentido, do universo particular do leitor. Mas vejamos: nem tanto, nem sempre. Se aquele é egoísta (o autor), este também (leitor). Apesar do vôo livre dos olhos de quem lê, são do autor os riscos da aventura do texto; ao leitor, em princípio, o prazer de ler. Por isto quem lê não pode achar que quem escreve deseja confundir, enganar, tornar difícil o contato, ou que objetiva “não conseguir dizer”. Os perigos de não ser entendido existem, o autor sabe, mas quando escreve é para o leitor, só para ele, e, além de tudo, é tão difícil.

Pegue este autor. Venha escrever no lugar dele. Não é fácil. Costumo dizer a quem me conhece: escrever, seja o que for, é, senão, a pior das coisas. Todos os que escrevemos temos dificuldades com a escrita, como a maioria, principalmente como os que não escrevem. Mas aí você lê o que escrevo, vê meu texto todo pronto, bem organizadinho, e diz: fácil pra esse cara; ele é inteligente e um troço desse ele tira de letra. Engano. Falo de mim e garanto: até para fazer a escolha de sobre o que escrever, tenho dificuldade – escrever sobre o que escolhi, então, nem conto.

De alguma forma é correto pensar como a Rosa, que em certo texto um autor não está falando a você. Todos os leitores podem e devem reclamar se não entendem o que um autor quis dizer. Mas considere as milhares de tentativas do autor para escolher as palavras que formarão o seu texto, a vez de compor uma frase mil vezes, o escreve-reescreve comum, tendo em vista o entendimento, esse “não falar sozinho” dentro do texto. Considere essas coisas: no fundo, pode não parecer, mas o autor sempre estará falando a alguém. Às vezes ele não está lhe falando diretamente, às vezes parece que sequer usam a mesma língua, mas bem por ali, onde você não entende, ele já disse – ou melhor, falou de você sem que sequer notasse. Outras vezes é um descarado, um fingido, e como na conversa, foge do assunto e tenta desconversar.

Ainda assim, continuo a gostar da palavra rosa. Acho-a perfeita para o que nomeia: para dizer uma pessoa, alguém como quem se assiste televisão vez em quando, por exemplo, ou para dizer uma rosa mesmo, o vegetal. Adoro jardins: ali as roseiras, as folhas, as flores, tudo… E vez em quando me vejo falando de rosas, leio sobre elas ou canto canções que levam seu nome na letra. Por que tudo isso?

Bem, sobre as canções direi: porque há um sem número de referências à palavra “rosa” na música brasileira. Vou lembrar algumas. Há a Rosa do Chico Buarque (quem ouviu conhece): “A Rosa, o meu projeto de vida, bandida…” Lembram? Roberto Carlos canta duas, Rosa e Rosinha. Dorival Caymmi, se não me engano, tem As Rosas e o Tema de Rosa. O Pixinguinha também fez uma. Cartola, outra, famosíssima: “As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti”. E um dos maiores compositores brasileiro tinha no sobrenome a palavra rosa. Coincidência? Imagino que você pergunta: o que há com na palavra rosa que ela inspira tanto os compositores e à vista lhe dá até nome? Suponho que a resposta esteja em Shakespeare. Em certo momento da tragédia Romeu e Julieta, comenta o bardo inglês: “Aquilo a quem damos o nome de rosa, com outro nome seria igualmente terno”.

Mas há outros motivos. O Umberto Eco escreveu um romance que adoro, a que deu o título de “O nome da rosa”. Não tem o lirismo das canções citadas nem há nenhuma personagem com esse nome, mas está no título: rosa. E os poetas, esses, engrandeceram a palavra em quilômetros de páginas, em poemas inteiros, ora falando explicitamente das rosas, ora usando a palavra. Além do que, um dos escritores mais fantástico que conheço também se chamava Rosa.

Sim, devo lembrar a história da criação da rosa. O gosto dessa história também me faz gostar da palavra. Na mitologia grega a rosa nasce por intermédio da deusa das flores. Chloris a cria a partir do corpo de uma ninfa encontrada num bosque. A lenda diz que a rosa ganha de Dionísio o néctar, de Afrodite a beleza e que Apolo lhe dá o pólen e a faz florescer. Ao fim, torna-se a rainha das flores. Já o mito romano tem outra versão, mas não é assim tão bonita.

Por tudo isso gosto da palavra rosa. E mais ainda: porque a Rosa é uma minha vizinha, e também gosto da Rosa. Tanto que seria capaz de escrever uma crônica sobre ela. Escreveria qualquer coisa em nome da Rosa, de todas as rosas, as vegetais e as mulheres, qualquer coisa colorida e que cheirasse a orquídea por todos os lados.

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Sobre o Autor

Adalberto dos Santos

Adalberto dos Santos

Cajazeirense, vive em Fortaleza, é ficcionista e cronista.

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