Crônicas

Enquanto a tarde caía, Lula levantava o copo e pedia um tira-gosto de caju

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Se essa memória que um dia há de matar este escriba por lembrar tantas coisas que outros fazem questão de esquecer, o  ano era o de 1982, pouco tempo depois da famosa (mais famosa por lá) greve dos 41 dias, um dos troféus-trabalhistas pendurado em sua parede de memória.  Sua fama, pelo que se ouvia por aqui,  era só reconhecida (simples  metalúrgico, cheio de graxa, disse  que deu até autógrafos)  na cidade de São Paulo. O Estado, por sua vez, pelo que lia no Pasquim, Movimento, Co-jornal (esse gaúcho) e outros alternativos, era grande demais para  o presidente de um sindicato, que, se não chegara ali no último pau-de-arara, deixara  o seu cariri sem deixar uma só vaquinha no couro e osso.

Por aqui na terra do Compadre Heráclito e Dona Chiquinha, Luis Inácio Lula da Silva, o Lula em especial, não passava de um simples molusco. Ou melhor: muitos sequer ouviram falar que o apelido do então líder metalúrgico era na verdade um molusco cefalópode, dibranquiado e decápode,  do qual falava o Aurélio e Houaiss. A lula, assim como muitos camaleões e políticos, como ocorre ainda hoje, inclusive com o Lula, pode mudar de cor segundo com o meio ambiente. Ora, afinal, 1 Berto de Almeida, estás falando sobre o Lula ou a lula?Tanto fazia. “Ambos eram  desconhecidos para os paraibanos (senti a cacofonia)”. Lembrando a “Da Maior Importância” – “Porque eu sou tímido e teve um negócio/De você perguntar o meu signo quando não havia Signo nenhum” – do manhoso filho de Dona Canô,  aqueles  “lulas” não tinham a menor importância.

O papo por aqui era a ascensão mais rápida que o costume de artistas como  Elba e Zé Ramalho. Dou a mão à palmatória: não esperava que a nossa voz de gralha – melhorou muito – voasse tão alto quanto a Ave de Prata que o Zé Ramalho  tinha acabado de pegar  no seu alçapão poético. O autor de Avô Hai, por sua vez, acabava de fazer uma viagem ao Recife, acompanhado do recém criado Ave-Viola, grupo musical que sob a direção, texto e muitas músicas deste escriba, com parceiros  memoráveis, encheu  pela primeira vez o nosso velho e histórico teatro Santa Roza.  Aqui, lembro que essa casa de espetáculos, elogiadíssima pela  sua arquitetura e acústica,   foi chamada pelo Gilberto Gil de o “Grande Navio”.   A viagem –  cabe o duplo sentido –  foi realizada em uma Kombi  somente pedaços.

Dentro da Kombi  a  fumaça estava insuportável.  Zé Ramalho insistia.  Tinha que “fazer” a cabeça. Sem ela feita, voltaria dali mesmo. Estávamos na cidadezinha de Goiana, estado pernambucano. A discussão continuava. Enfim, sendo bom para ambos os lados, veio a solução:  pára a  Kombi. Zé faz a cabeça,  e volta  a bordo. Está satisfeito. Tocamos pro Recife. Chegamos.  Fomos, então,  à velha e saudosa  gravadora Rozemblit, onde mais tarde,  com o Lula Corte, Zé Ramalho gravaria o raro e caríssimo Paêbirú (apenas 350 cópias). Dessa vez, com o Ave-Viola, ele gravou um  poema de Solha, artista plástico e poeta(?) destas plagas,  chorando  a derrubada de O Circo, uma das primeiras casas de show da terra de do irmão do  Lula, Leonardo,  esse, porém, como o Dapenha sabe, irmão nosso  por parte de pai.

Naquele dia, com a sua indefectível barba grande e mal feita, pontas saindo pelos  cantos da boca, preta como a asa da graúna do Zé Alencar, Lula sequer lembrava o “sapo barbudo”,  apelido que somente anos depois  ganharia do Brizola.  Falava pouco e comia muito. Tinha acabado de chegar da vizinha cidade do Recife. A kombi – parecia perseguição, outra  Kombi… – trouxera à capital uma plêiade – não de sete –  de uns dez a doze companheiros. Ninguém percebeu que não era o metalúrgico, mesmo naquela época, quem visitava a terra do grande Zé Pereira, um puto personagem e infelizmente pouco conhecido por aí, que reinou absoluto em sua terra Princesa. Estava ali, num barzinho de esquina, o candidato a presidente.  Lula nunca me enganara. Nos distantes anos de 80, menino ainda, votando pela primeira vez, não esquecerei: tomei uma cachaça  com o futuro presidente da República do (i)Real!

Hoje o Blitz, destruído, deu lugar a uma loja de presentes. Virou loja de presentes. E, assim como muitas lojas que ocuparam o local, inclusive uma de  presentes,  acabou como o bar: sem futuro. Lembro que  o  nome  Blitz lembrava a polícia , quando preferíamos, mesmo antes do Julinho da Adelaide, chamar  ladrão. Ó memória! A Kombi ficou meio-escondida, embaixo de uma árvore, ao lado do nosso principal cartão postal, a Lagoa do  Parque Solon de Lucena. É o  centro da nossa capital. Lembro que Lula  usava  camisa listrada –  viva o  Assis Valente! – e  calça top. Pelo aspecto das mesmas, há muito que as bichinhas mereciam uma boa lavagem.  Mas… Roupas?  Pra  quê, se o  rei não estava  (ainda) nu?

Lula, o metalúrgico, bebia e  comia e falava em mudanças.  Bebia e comia. Entre uma comida de boca cheia e outras não esquecia o famoso  jargão do “temos que nos uni(sic), cumpanero!” Isso mesmo. Desde aquela época Lula sempre gostou de  engolir  os erres das palavras e, às vezes, de frases inteiras.  Percebi ainda  que o companheiro aí no singular, tanto servia para os poucos presentes ou apenas um, no caso,  para este  escriba e consumidor de arte.   Ele  engolia as palavras e, mesmo engasgado, insistia em continuar falando. Não sabia,  como ainda hoje não sabe,  que usava e abusava de pobres e inocentes  metáforas  e das tautologias.

Diferente do Lula presidente nos tempos do bar do  Blitz, o metalúrgico Lula falava menos e comia (bebia também) mais.  De quando em vez,  limpava a vasta barba ainda asa de graúna com uma das mãos, e entornava com a outra um copo suado por uma  suave lourinha, com uma sede de quem acabava de cruzar o Saara na metade do dia,  pés descalços e braços nus, feito um Casemiro de Abreu correndo pelas campinas nos seus Oito Anos.  “Temos de mudar esse país! Só com união a gente vai conseguir mudar esse país! Tá na hora dos trabalhadores brasileiros mostrar(sic) que este país é feito por nós!” Assim mesmo, todo exclamativo. Mas a frase feita ficara em minha cabeça: um país feito por nós?

Desconfiei,  então, que o “companheiro” Lula era um agente infiltrado! Um  país feito por nós? A frase não era de quem desejava um país realmente feito por nós. Imaginei uma charge mostrando os pescoços de  muitos brasileiros amarrados “por nós”. Pronto, agora, disse para o colega ao lado,  ele vem com a famosa “Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”. Mais um Ledo Ivo engano do escriba. Lula nunca ouvira falar do Millôr, esse excelente frasista  a quem muitos, erroneamente, creditam a frase. Também não  sabia que o Sérgio Porto  era o melhor amigo do Stanislaw Ponte Preta. A frase, principalmente a palavra “locupletemos”, só viria saber o  seu significado depois de eleito presidente. Tudo graças ao  Zé Dirceu, que tomara emprestada  ao Paulo Maluf e nunca mais devolveu.

Por fim, depois de matar a sede com muitas  geladinhas servidas por Biu,  velho e histórico garçom que por muito tempo (nos)  serviu por estas plagas, cabeça, troncos e membros do Bar do Biltz e outros bares, Lula queria porque queria, e insistiu tanto nesse desejo que teve o seu desejo atendido: conhecer a nossa Praia da Penha, famosa pela procissão que leva  o nome dessa santa, e   carrega todo fim de ano,  em romaria, mais de 200 mil pessoas, num percurso de 14 quilômetros.

Mas, seria para ver a   sua (da praia) igrejinha secular, ou conhecer uma de nossas últimas reservas ecológicas? Nem uma, nem outra.  Lula queria mesmo era tomar uma cachaça de cabeça com tira-gosto de caju, um fruto em abundância por estas terras naqueles dias. A cachaça  da minha terra é mais forte do que vocês podem  imaginar. Nessa tarde, pelos meus cálculos, Lula tomou um pouquinho mais que uma meiota, como chamamos por aqui a metade de uma garrafa de cachaça, e danou-se Brasil afora.  Porém, pelo que tenho visto, até hoje,  o efeito da danada,  posto que é chama, parece que ainda dura.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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