Crônicas

Ensaios de uma viagem e um prêmio

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Há 3 dias eu entregava uma obra e corria para o aeroporto internacional Maestro Antonio Carlos Jobim, o nosso Galeão (GIG). Meu voo com destino final na italianíssima capital da moda, Milão, seria cancelado em cima da hora. “Problemas elétricos”, alegou a companhia alemã, aos poucos mais de 40 passageiros que perdiam suas expectativas de férias, trabalho ou premiações. Para mim, em especial, um primeiro prêmio arquitetônico e internacional, cuja cerimônia de entrega aconteceria na Expo Milano 2015, às 14h do dia 16 de outubro.

“Informamos que seu voo foi adiado para o dia 16/10”, eram as primeiras palavras em inglês que me chegavam porsms na tela do celular. “Preciso embarcar. Sou arquiteta. Tenho um prêmio para receber”. Tentam me colocar em um voo pela companhia portuguesa, mas o embarque fecha quando, por um erro de digitação de um funcionário com boas intensões, o sistema impossibilita o meu novo check in. Me desespero, bebo dois copos d’água, aguardo minha mala voltar (cerca de 2 horas), recebo voucher de taxis para ir e voltar de casa para o aeroporto no dia seguinte e tenho minha classe evoluída para a executiva, em companhia “italo-áraba”, no horário do almoço do dia 15. Business, Milano, Prêmio Internacional.

Tudo parecia se acertar, apesar de a previsão de chegada não me dar folga para um pequeno descanso ou refeição em terras italianas. Mas passadas cerca de 3 horas do primeiro voo, com duração de quase 11 ininterruptas, minha pressão cai e me deitam no chão do avião. Um médico argentino me acode, junto a quatro funcionários da companhia, que traduzem o que eu sinto do italiano para o espanhol. Brasileiros e Italianos se aproximam para ver se estou bem, um conterrâneo me oferece remédios – pelo que me disse que trazia consigo, parecia uma pequena farmácia ambulante -, faço amizade com a tripulação, Alessia, uma romana em particular, me pede para que eu pegue um pouco de sol quando voltar ao Rio. Ao final, quase desmaiar me trouxe gentilezas e ali pude ter certeza de estar viajando em uma boa companhia. Mas me senti só, pela primeira vez em minhas viagens. Quando volto ao meu assento, olho pela janela. O manto da noite cobria a aeronave e ao olhar mais atentamente, vi uma estrela brilhar intensamente. Todos somos estrelas no céu; na terra, temos uma expansão temporária de luz em forma de seres humanos. Aquela que me acompanhava da janela era minha mãe; ela me diz que está sempre comigo, e foi como sentir seu abraço. Sorri. Coloquei o fone de ouvido e resolvir ouvir música. Canções clássicas, como as que meu pai colocava para ninar a mim e a minha irmã invadiram meu ser e, neste instante, outra estrela brilhou, próxima a minha mãe. Uma constelação de 4 estrelas acompanharam o percurso aéreo que eu fazia, e no meu colo, fotos de meus pais, irmã e namorado velavam meu sono. Foi quando cheguei ao Fiumicino. Roma! Estava em casa novamente!

Troca de avião, paro em um negócio de celular para ativar um chip não mais utilizado, “está bloqueado! Resolva na loja de Linate quando chegar a Milão”. Em Milão, não entendem porque não conseguiram desbloquear em Roma, tentam várias soluçõea e, no fim, saio com um novo número e dois bilhetes para a Expo por um preço menor do que um na bilheteria oficial do evento mundial. Saio do aeroporto, pego um trem urbano no sentido contrário ao da casa da prima que me hospedaria, volto, o relógio me apavora. Em sua casa, tomo um banho rapidamente, deixo o celular carregando no banheiro enquanto pego casaco, bolsa e sapato e… a porta do banheiro fecha, estando trancada pelo lado de fora. Tento abrir com uma moeda.. 0,50 centavos de euro, 1 e 2 euros.. todas são grossas demais para entrar na fechadura. “Não acredito que depois de tudo, vim até aqui e não conseguirei estar na premiação!”. As lágrimas me correm o rosto. Quase 1 hora tentando e, com uma colher, a porta se abre. Pego o celular, saio com o estômago roncando, tento chamar um táxi, pego um ônibus até o metrô, a Expo é longe daqui, não vai dar tempo, entro e saio da estação, entro de novo, compro o bilhete, troco de linha, sigo por 16 paradas em pé. Chego atrasada, mas um amigo que dividiria o prêmio comigo me avisa que também estão atrasados por lá. Entro na exposição, é gigante, não dá tempo de andar até o Pavilhão da Lombardia, corro até a parada de ônibus interno, o ônibus não passa, de novo me desespero – se é que não estava desesperada continuamente desde a primeira ida ao Galeão -, o arquiteto me diz que estavam entrando. O ônibus chega. Demora para sair, são 4 paradas, saio de frente ao Pavilhão da Itália, muita gente, fila para todos os lados, ando até o encontro das ruas Cardo e Decumano (simbólico; os arquitetos e urbanistas leitores entenderão) e aviso à recepcionista que sou uma das vencedoras da premiação. Me liberam o acesso restrito, subo dois andares e entro em uma porta. Avisto meu amigo, no palco nos anunciam.

Foi tudo drasticamente calculado para dar certo. “A sua viagem dá um filme!”, me diz este meu amigo, quando lhe coloco a par da situação. E não é que o resumo transforma-se em uma Crônica Carioca?

A premiação é seguida por degustação de vinhos e petiscos, algumas fotos, visitas a pavilhões e muito frio. Não fui preparada para um outono tão inverno, mas esta fica sendo uma outra história.

Ensaios de uma viagem e um prêmio.. que aventura! Aqui lhes deixo para dar um pulo em Como, cujo lago é uma beleza pelas fotos da internet. Um domingo de muita aventura a todos.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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