Crônicas

Entre Azuis e Brancos

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Vejo pontinhos brancos luminosos quando olho para o teto. É como se o céu tivesse expulsado as estrelas, que vieram pedir abrigo no forro do meu apartamento. Olho para elas com um olho só e, como num redemoinho, me transportam para algum lugar no oceano Atlântico, sobre uma superfície de madeira a balançar ao gosto das ondulações marítimas. As mesmas estrelas se acendem no tecido azul Royal que cobre o céu. Ainda há luz natural o suficiente para descobrir uma casinha flutuante perto das rochas. Nado até lá e conheço Safira, a mulher de meia idade que cuida da casa. Me conta sobre como foi parar ali em 1987, e nos lançamos em uma bela conversa sobre sua rotina. Diz que muitas pessoas passam por ali e até se hospedam, que tem planos de ampliar o perímetro de sua casa flutuante. “São quase 19h”, me diz. “Venha ver quem está chegando”.

E, como em um passe de mágica, percebe-se um agito das águas. Ouve-se o som que eu reconheceria a qualquer momento da vida, até então aprendido nos filmes ou TV e, inesperadamente surge um casal de golfinhos, a sorrir para mim. Acaricio o rosto do primeiro, enquanto o outro aguarda sua vez de me cumprimentar. São lindos sob o reflexo da luz das estrelas. Entram na varanda de Safira e parecem brincar. Nesta hora surgem ao nosso lado cerca de15 pessoas de nacionalidades distintas. Chegam pela rocha, vindas de hotéis do outro lado da pedra. E hora do espetáculo. Batemos palmas e os golfinhos ficam cada vez mais eufóricos. Até que se viram um para o outro e se beijam. Todos entoam um “Ooooooooo” com a voz do coração a ecoar pelos lábios. Então dezenas de pequenos golfinhos saem por debaixo da casa para o céu, em acrobacias divinas.

Acordo e o céu é azul celeste. O brilho das estrelas vai se misturando ao tom branco do forro de gesso da sala. Os golfinhos permanecem em minha íris como se fossem reais. Ainda ouço suas vozizinhas em meio a ambientação de uma nova manhã de domingo

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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