Crônicas

Escrever é dançar bem acompanhado entre as linhas das palavras e entrelinhas dos versos!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Essa segunda-feira me pegou ainda com a cara do domingo. Não cara de feriado, entendam, ressaca pulando pelos olhos e boca seca de quem acabou de atravessar o deserto de Atacama. Mas com aquela cara de “não-estou-nem-aí” para a segunda-feira. Ou seja: amanheci com o espírito de quem não gozou o sábado nem o domingo, e saiu da sexta (nada a ver com “sesta”), reduzindo direto para a segunda, sem quebrar um só dente da caixa de marcha.

Foi com esses olhos que nada têm de ressaca que vi o colega adentrar (estão vendo a mania de ouvir narradores de futebol?) a minha sala de trabalho e dizer que descobriu o meu segredo de escrever e sempre encontrar um assunto, todos os dias, para escrever. E quando estou sem assunto? Ora, não respondeu, mas deixou a resposta no ar: “escreve sobre a falta de assunto”.

O segredo, o teu – leia-se “o meu” -, é que escreves brincando, não fazes o menor esforço e não estás nem aí para o que escreves. A gente começa a ler as tuas coisas, vai indo, vai indo e, como na história daquele jogador de futebol, acaba fundo.

Não entendi, pedi mais explicações e elas vieram: escreves como respiras e respiras o que escreves. Notei que deixaste de jogar bola para jogar, agora, palavras. Se eu entendi? Sei, não… Mas como aquela medida que vocês dizem não existir e, se existe, é medida de Sul, respondo à queima-roupa: mais ou menos.

A verdade, meu amigo, é que aprendi nos meus muitos anos de “estrada literária” que as palavras, sem exceção, são todas armadilhas. É como naquela advertência do “cuidado cantor pra não falar palavra errada”. Sendo que, por aqui, em nosso caso, o cuidado não está no falar, mas no escrever. Tudo bem que escrevo brincando. Mas o que vocês acham? É mais fácil escrever brincando ou brincar de escrever difícil? E escrever difícil, como vocês que são inteligentes sabem, sempre foi fácil. Agora, escrever fácil… concluam.

A propósito me vem à cabeça a confissão inesperada de uma colega dos tempos de universidade de que somente tirava “dois ou três livros” da bibliografia de Augusto dos Anjos. O resto, dizia, “os outros de sua vasta coleção de livros publicados”, era descartável. Mas o poeta do Eu (doeu! ai, doeu!) ficou nele mesmo. Ou melhor: nos “dois ou três livros” escolhidos por ela. O povo falava no Eu e ela respondia por nós. Ou coisa parecida.

Eu brinco de escrever? Não. Às vezes, como agora, escrevo brincando. Se é que me entendem. Mas, como ia dizendo e parei para mudar de parágrafo, a coleguinha jornalista (escolhera o jornalismo, diria mais tarde, por vocação) também me dissera outro dia, vendo este pobre escriba cometendo um texto sobre o seu poeta preferido, o Mário Quintana, que “escrever era a coisa mais fácil do mundo!”.

Pronto, meu Deus, agora lascou! Disse baixinho para os meus botões, naquela época, mais osso do que carne. Escrever era a coisa mais fácil do mundo?  E agora? Teria perdido todo esse tempo tentando entender o que havia de inculto em nossa última e bela flor do Lácio? Porém, mesmo sabendo da dificuldade, esperei que a colega concluísse o raciocínio.

Era difícil, e eu sabia. Sendo daquele tipo de pessoa que o Millõr falou um dia ser incapaz de ouvir uma história com duplo sentido e não entender nenhum dos dois, a conclusão era tão difícil quanto aquela do Rogério Magri (estão lembrados?) para entender que cachorro não era um “ser humano” e que, se entendeu um dia, não tomei conhecimento, deixei que ela racionasse para depois obtemperar (gostaram?).

Ah, demorou um pouquinho, mas veio: “Escrever é a coisa mais fácil e besta (ainda acrescentou o “besta” aí!) do mundo! O povo vê Humberto escrever e acha que é difícil! Escrever, confesso que sei e bem! Agora, concluiu professoralmente (epa!), o que eu não sei e reconheço não saber é usar “essas besteiras” de ponto, vírgula, parágrafo, tudo isso somado a essa outra besteira de “associação de idéias”!

E nada mais disse. Nem eu. Fiquei com medo de que ela sacasse um revólver.

Mas não sei se era isso que o meu amigo quis dizer quando disse que este escriba “escrevia bem, porque brincava de escrever… Ou escrevia brincando? Algo assim ou parecido. E que escrevia até mesmo quando não tinha assunto. Sobre qualquer coisa, desde que essa “qualquer coisa” aí não fosse aquela coisa sem nexo do Caetano Veloso.

Vocês querem saber o que achei? Como estava sem assunto, aproveitei para escrever essas mal-traçadas.

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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