Crônicas

Espírito Olímpico

André Lucidi
Escrito por André Lucidi

As olimpíadas finalmente chegaram ao condomínio Bela Idade, um condomínio charmoso de aposentados em jacarepaguá. Em meio as discussões diárias dos quais os melhores remédios para artrite, para gases, para reumatismo e problemas de coluna, seis amigos resolveram que, embora idosos, tinham que dar o exemplo para os mais jovens da cidade, tão descrentes desta festa mundial e do significado real dela e, por estarem segundo eles,demasiadamente afeitos as manifestações políticas. Sentados na praça do condomínio, resolveram que era hora de inciarem uma olimpíada da terceira idade e mostrar todo o potencial que o tempo, este imolador incansável, traz ao corpo.

De início, uma complicação. Dadas as condições físicas de cada um, não viam muitos esportes pelos quais pudessem recorrer para tal evento. Em seguida, sendo o lugar um condomíniofechado, não teriam como divulgarem seus feitos, pelo menos para vizinhança, a não ser que fizessem uma boca livre e servissem bebida e comida para quem quizesse chegar. Pensaram nos familiares, que só apareciam nas datas festivas, mas acharam melhor não chamá-los, pois, poderiam aparecer, pensando em ficar com a pensão de algum deles. Foi seu Dondinho, aposentado do Corpo de Bombeiros, com um histórico de 18 salvamentos de vidas ao longo da carreira, quem deu a sugestão derradeira. Deveria ser transmitido pela internet. Apenas teriam que chamar seu Eleutério, também vizinho e que consertava cameras por hobby, para estabelecer a transmissão, no que foram plenamente assistidos.

Veio, então, a questão das modalidades. Foram sugeridas deglutinação de sopas, prontamente negada, por envolver efeitos colaterais negativos. Em seguida, sugeriram um torneio de bocha, mas cinco dos participantes da organização não poderiam, por bursite. Pensaram no torneio de damas, mas ao ar livre, poderia gripar algum dos participantes. Desiludidos, foram cada um para suas casas com a missão de no dia seguinte, surgirem com pelo menos uma modalidade que todos os presentes pudessem participar, sem que fossem diagnosticadas sequelas

Pesquisa de lá, pensa de cá, no dia seguinte, seu Antuérpio, um ex-comerciante, surgiu com a ideia definitiva: iriam fazer um short triatlon. Neste triatlon, deveriam caminhar 2 km, pedalar em bicicleta mais 4 kms e nadar na piscina do condomíno mais 1km. Primeiramente os outros perguntaram se haveria alguma ambulância de plantão. Em seguida, se seria tudo isto no mesmo dia. Por último, se os percursos poderiam ser feitos de bengala e de pés de pato. Também não foi aprovado. Foi aí que dona Marieta surgiu caminhando na praça desfilando toda a sua viuvez aos 70 anos de idade. Sabendo das intenções dos alí reunidos, deu um ultimato: “só faria bolo de aipim com coco para o piquenique dominical após a missa, se o condomínio fosse todo limpo”. Argumentou que, assim sendo, haveriam de dar exemplo aos mais jovens quanto a limpeza e organização e mostrar todo o vigor do idoso brasileiro. Todos aceitaram a ideia e no dia marcado, após a missa, seu Eleutério ligou todas as câmeras e publicou nas redes sociais A Olimpíada da Terceira Idade, nas categorias broxa na casa alheia, para uma melhor pintura meu prezado leitor libidinoso, esfregão no chão da praça e escalada em escada para trocar lâmpadas.

Pois, saibam vocês que não viram que os vídeos viralizaram na internet. Em oito horas, já havia mais de duzentas mil curtidas. Haviam aplausos, palavras de incentivo e até algumas cantadas de mulheres mais jovens, pedindo o endereço do condomínio e os serviços dos agora rejuvenecidos senhores. Faziam ofertas por trocas de serviços. Essas cantadas, foram devidamente bloqueadas por dona Marieta, que após uma crise interna de ciúmes, acabou com a verdadeira motivação das olimpíadas. Disse que se continuasse assim, não haveria mais bolo no domingo, fazendo todos retornarem às suas casas, o que todos o fizeram, cada um levando consigo no coração a dúvida de de quem ela haveria de ter sentido ciúmes.

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Sobre o Autor

André Lucidi

André Lucidi

Um cara de bem com a vida. Nada mais. Artista multimídia, que faz cinema e animação e literatura. Colaborador de Greenpeace e me considero eco-anarquista.

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