Crônicas

ESQUERDA-DIREITA-FALATÓRIO

Luciano Fortunato
Escrito por Luciano Fortunato

Caro Lung,

Dez anos se passaram desde a estréia do Crôn30icas Cariocas e cá estamos. E como estamos? Nós, nossos amigos e queridos, nossos pais, nosso mundo, nosso estar mais ou menos carioca. Como temos enfrentado o bem e o mal estar da vida civil?

Envolvidos com cães e homens, cada um a seu modo, sei que eu e você somos meio que jornalistas frustrados. Não ser jornalista profissional hoje é uma baita sorte, bem sabemos. É, a mídia hoje em dia é o grande assunto, não é mesmo? Sei lá, amigo, às vezes penso que temos o privilégio de estarmos vivendo um momento especial na história, quando cada pessoa pode ser seu jornalista pessoal e mudar o mundo, nem que seja por 15 segundos (ou eram 15 minutos os do Warhol?). Um momento de nossa história móvel e repetitiva, quando novas e velhas bandeiras sobem o pau, camisas são vestidas, tapetes são puxados, pedaladas (vá a gente explicar o termo pedalada no futuro e dizer que vinha do confuso futebol de um antigo jogado chamado Robinho). Mas tudo em slow motion – ainda que a percepção inicial não seja bem esta –, pois em nossas almas cartesianas não há mais tempo para desesperos e precipitações. Isso, precipitações, da mesma forma que os antigos navegantes luzos temiam o precipício ao fim do Atlântico. As engrenagens pequenas rodam sempre mais rápido que as grandes. No entanto, a alta rotação em torno de seu eixo não quer dizer que sua velocidade real seja maior – afinal, são engrenagens, devem estar, obrigatoriamente, em sincronia. O que quero dizer é que a super velocidade das mudanças pode ser aparente ou relativa. De toda forma, na minha condição de pequeno, vejo ou penso que vejo a vida da gente num momento especialíssimo. Quem sabe um momento de confusão ou reflexão que antecede um salto ou uma importante viagem ou mudança? Quem sabe, no meio de todo o falatório ininteligível, um tipo especial de silêncio que anteceda o grande e derradeiro esporro? Nossa… quantas metáforas! E pra dizer exatamente o que? Que sou mais um homem confuso no meio da confusão geral? Sincero comigo mesmo, deixo-me estar confuso. Aceito-me confuso.

Há dez anos, Lung, pouco se falava em esquerda e direita pelas bandas fluminenses. Era papo restrito a rodas intelectuais (de esquerda). Agora não. Agora é tema dos, tão ricos quanto triviais, tribunais feicebuquianos. Acho isso bom. Mesmo que a maioria das pessoas ainda não compreenda bem tais termos: esquerda e direita. No entanto, a impressão que me dá é do retorno de um passado que não vivi, já que eu não existia em 1962, 64, 68. Ao fim de 69 eu abria pela primeira vez meus olhos para a luz, e o mundo havia acabado de dar um cavalinho de pau. Hoje, eu que sou um homem de uma provável canhota não xiita, assisto com animação – confesso – ao embate direita versus esquerda, que é mais barulhento no Rio que as torcidas de Flamengo e Vasco juntas. Talvez o Rio, antena do mundo, possa nos dar o tom da história ou da farsa. Não consigo ver São Paulo da mesma maneira, como antena: engraçado isso. São Paulo está mais para amplificador do que para antena. Os paulistanos me parecem pessoas com mais certezas, mais interessadas em falar de tais certezas do que em ouvir a embaraçosa e perturbadora microfonia da dúvida. O carioca, mais apático e bolado que o paulista – não que todo brasileiro não tenha altos níveis de apatia e bolação –, parece ouvir mais. Carioca para pra ouvir vento. É a minha impressão. Eu, que não resido na capital fluminense maravilhosa mutante misturada e camuflada de si mesma.

Desejo, meu caro amigo, que nossas Crônicas Cariocas possam ter a sorte e o orgulho de sobreviver ao momento histórico, quando todos falam muito e até ouvem um pouco, e, assim, sobreviver à história, viver a história. Que possam ser como a árvore forte que testemunha bons ventos. Pois, que os tempos estão mudando… ah, isso estão.

Abraço,

Luciano.

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Luciano Fortunato

Luciano Fortunato

Escritor.
"o menino é o pai do homem" (willian wordsworth);
"criar é dar forma ao próprio destino" (albert camus);
"...atire a primeira pedra" (yeshua)...

Ateu Cristão
Não creio em divindades de quaisquer religiões. Mas respeito profundamente quem crê no mundo místico, onde, aliás, vejo muita beleza. E como tenho como meu modelo pessoal o de Cristo, que é o exemplo total de tolerância, compreensão, conciliação, fraternidade, coragem e amor, sou levado, sem qualquer incômodo, a respeitar todas as religiões. Fé e ciência: ambos merecem respeito. Sou um homem curioso, preocupado em entender o ser humano e o mundo, e também a sentir a vida de forma grata... apesar de minhas posições políticas.
Preferência política: Simpatia pela esquerda

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: