Crônicas

Estações

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Gosto de pensar no meu amor como um jardim inocente e inexistente, onde nada acontece e tudo importa. Nada significa e em tudo – onde nada existe – há um pequeno sentido. Como se fosse a linha e a agulha antes, durante e depois do arremate de uma determinada vestimenta. Chego à conclusão concisa de que o meu amor é uma ideia, nova a cada fim de tarde. O meu coração envolve um mundo infindo de outros mundos, sempre cor sépia, cinza e obscuro.

Quem um dia já viveu um romance, desses contados em livros, repleto de cavalheirismo, suor e mãos e enrubescimento das maçãs dos rostos, paixão instantânea e duradoura, ciúmes, crises, beijos e poemas, sabe o que estou dizendo. O amor é mistério. É toque. É o diagnóstico da loucura.

Um amor que vale a pena virar filme de cinema, com mocinho/mocinha e bandido em seus lugares devidos, flores e declarações excrachadas de bons sentimentos; atenções redobradas a cada tristeza e alegria, promessas que jamais serão cumpridas. Sonhos, muitos sonhos.

O jardim imaginário se cobre de folhas ao chegar do outono. As fotografias provam o indizível, o vento deixa o rastro de aromas marcantes e vêem-se pegadas que esmagam flores. Aparecem flocos de neve e, de novo, nada existe. É um branco cortante a disfarçar os botões que lutam contra o frio inverno de mim. Linguisticamente é um aposto, ou um vaco entre parênteses.

Por mais que tentemos hibernar ao longo desta estação, a vida segue seu rumo, e o tempo passa. Um belo dia – belo, belo mesmo – a primavera se faz presente, e tudo são rosas, orquídeas, lírios, margaridas. Mesmo que não existam.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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