Estresse sob medida

by Claudia G. R. Valle | 21/01/2018 05:58

Muita gente reclama do estresse, da correria, e de tudo o mais que enfrentamos no dia-a-dia, mas estresse não é privilégio da vida moderna, tantas vezes injustamente acusada de piorar tudo.

Aliás, aproveitando a deixa: a vida é sempre ‘moderna’, seja qual for a época em que se viva. Se existem outras vidas, não parecem estar disponíveis de imediato. Talvez fosse melhor dizer vida ‘atual’, mas ‘moderna’ caiu nas graças do povo.

Imaginem o estresse dos homens das cavernas, tendo que conviver com todos aqueles tigres de dentes de sabre dispostos a transformá-los em refeição, ou dos tripulantes dos navios do século XV, desesperados pela falta de vento, água e comida enquanto desbravavam mares desconhecidos.

As pessoas cuja existência inclui objetivos, planos e desafios que lhes causam algum estresse sempre me pareceram mais felizes do que as pessoas que não enfrentam nenhum estresse. Estresse de menos aparenta ser tão prejudicial quanto estresse de mais, só que de outra forma.

Por aqui, com todo este noticiário alarmante, provavelmente não temos como escapar da overdose, mas, apesar de tudo, ainda é preferível enfrentar o trânsito e os arrastões do que os tigres de dentes de sabre.

No Japão os pescadores de atum de alto mar precisam chegar com ele vivo ao porto para aumentar seu valor comercial. Por isso os atuns capturados são colocados em tanques de água salgada até que o navio chegue ao seu destino, o que pode levar vários dias, até semanas.

Como o espaço nos tanques é limitado, os peixes se movimentam muito menos do que se movimentariam se estivessem em liberdade. A carne desse atum preguiçoso amolece e deixa de ser considerada boa para fazer sushi.

Os japoneses resolvem o problema de forma simples: colocam um pequeno tubarão em cada tanque. O atum, pressionado pelo perigo, se movimenta rapidamente e assim exercita-se, o que resulta numa carne firme de melhor qualidade. Quando está com fome o tubarão ataca um ou outro atum menos ágil, mas os sobreviventes certamente se mexeram bastante.

Na vida de muitas pessoas há tubarões no tanque que as estressam e obrigam a nadar mesmo quando têm vontade de não fazer nada. O tubarão pode vir em forma de amigo ou de inimigo, de obrigações impostas ou auto assumidas. Há ocasiões em que somos ao mesmo tempo o atum e o tubarão.

Frequentemente desejamos que os tubarões desapareçam ou se tornem tão pequenos que nos permitam controlar a situação. Mas, se eles deixassem de ser uma ameaça, de que adiantariam? Complicado é determinar o equilíbrio entre as duas coisas e saber se estamos nos exercitando na medida certa.

Faço o possível para que os tubarões não me alcancem e vivo me queixando das dificuldades que eles me trazem, mas também lhes dou valor porque me forçam a crescer como pessoa. Sem essa pressão eu teria estagnado muito aquém de mim mesma.

Às vezes me sinto cansada, mas até agora não virei jantar de ninguém. Pelo menos por enquanto. Cruel é reconhecer que, se há tubarões no nosso tanque, existem outros tanques onde os tubarões somos nós.

Comentários

Source URL: http://cronicascariocas.com/colunas/cronicas/estresse-sob-medida/