Crônicas

Eu quero ter um milhão de amigos?

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Redes sociais são uma ferramenta a mais para observar a natureza humana. Está tudo lá: qualidades e defeitos, verdades e mentiras. Com a facilidade com que a informação circula hoje em dia, maravilhosa revolução da nossa era, as pessoas inevitavelmente se expõem mais.

Para o bem e para o mal, agora é mais fácil conhecer gostos e tendências. Pode ser o gato caladão que você achava o máximo, mas estraga tudo quando abre a boca, ou pode ser a criatura sem graça que você descobre ser uma pessoa interessantíssima.

Contatos nas redes sociais são bastante úteis, vários contribuem para tornar a vida melhor, e a democracia agradece à pluralidade de opiniões. Se aparecem desconhecidos inconvenientes, surgem também reencontros benvindos. Todo um universo à nossa disposição para explorar.

Embora não seja a melhor palavra, os contatos nas redes sociais foram rotulados de amigos, e é provável que o termo tenha sido escolhido por razões comerciais. Parte você conhece pessoalmente, outros são apenas amigos virtuais com quem compartilha interesses diversos. Há quem se gabe de ter dezenas, centenas, até milhares desses amigos.

No entanto, não há palavra melhor do que rede para descrever o contexto de um Facebook, ou similar, já que muita gente está verdadeiramente enredada nesses aplicativos. Se alguém se interessasse por repetir a experiência do “Super Size Me”, substituindo o Mc Donald´s pelas redes sociais, aceitando todos os convites de amizade que recebesse, e lendo todos os posts dos amigos, logo, logo, ia acabar num hospício.

Pense num indivíduo que apregoa quinhentos amigos virtuais. Se, entre ler/curtir/comentar, nosso herói consumir trinta segundos por dia com cada um deles, ao final da jornada terá gasto mais de quatro horas nessa tarefa.

Acrescente à conta o tempo necessário para compensar a perda de produtividade em outras atividades, já que frequentemente perdemos o foco quando as interrompemos para acessar as redes sociais.

Idem o tempo dedicado a excluir mensagens enviadas pelos chatos de plantão, que entopem as caixas postais e/ou celulares, com discursos estéreis, piadas duvidosas, coisinhas fofas, ou vídeos de acidentes de avião.

E a pessoa ainda precisa ganhar a vida, tomar banho, realizar tarefas domésticas, cuidar da família e do cachorro e, obviamente, dormir.

Os números são claros: gente comum não tem disponibilidade para cultivar centenas de amigos virtuais. Isso só acontece se for um lance de marketing. É o seu caso? Se não for, seu tempo é curto para tanta socialização. E você não deve ser ingênuo a ponto de acreditar que suas centenas de amigos vão dedicar-lhe mais atenção do que você a eles.

E quanto aos seus amigos reais? Para trocar confidências, acompanhar o que estão fazendo, conhecer seus planos, é preciso encontrá-los regularmente, ou, ao menos, comunicar-se com eles de alguma forma. Digamos que converse com os mais chegados, por telefone, uns vinte minutos por semana e os encontre uma vez por mês para uma atividade que dure cerca de quatro horas. Aos mais afastados, de quem você gosta bastante, embora encontre com menos frequência, digamos que dedique meia hora por mês.

Amigos de verdade são poucos: quase ninguém tem mais que quatro próximos, e uns dez mais afastados. Mesmo quem não os encontra em grupos ou nos locais que frequenta habitualmente, como bairro, escola ou trabalho, consome menos de uma hora por dia para dar, muito bem, conta do recado.

Não caia em armadilhas: divida seu tempo sabiamente entre os amigos virtuais e os reais. Você precisa de todos, mas o dia só tem vinte e quatro horas.

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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