Eu sei de histórias…

by Claudia G. R. Valle | 24/09/2017 11:01

Cheguei em casa e encontrei o recado: Fulano ligou e deixou um número de telefone para você retornar.

E agora? Não conheço bem o Fulano, porém sei de várias histórias sobre ele que me deixam desconfortável quanto ao seu caráter. Que desejará de mim este senhor, com o qual não pretendo fazer negócios, nem aprofundar os laços que nos unem?

Graças a conhecidos que temos em comum, encontramo-nos socialmente de vez em quando. Ele é muito agradável, bom papo, sempre me tratou bem, nunca houve entre nós uma pequena rusga que fosse. Mas eu sei de histórias.

Pelo perfil dele, desconfio que vá propor alguma coisa comercial, e a isso terei que dizer não. Essa negativa provavelmente criará um mal-estar, e quando nos encontrarmos novamente, o clima deixará de ser cordial. Ou talvez ele queira algum tipo de favor que eu não esteja disposta a prestar, porque sei de histórias.

Difícil saber a quem ele recorreu para conseguir o meu número. Um ou outro já me contaram histórias. Melhor ligar para alguém que tenha me prevenido sobre o Fulano, e perguntar se ele está arquitetando alguma coisa. Não posso deixar de retornar seu telefonema, mas é melhor ter uma ideia antecipada do que se trata e preparar-me para dizer não. Se for apanhada de surpresa o estrago poderá ser maior.

Liguei para uma amiga em que eu depositava confiança absoluta. Ela também não sabia de nada. Conhecia as mesmas histórias, teve as mesmas desconfianças. Especulamos sobre quem teria dado meu número ao Fulano. Suspeitamos de outra amiga, mais chegada a ele, com quem eu nunca teria coragem de abrir o jogo.

Tentei outro conhecido em comum, desta vez com cautela. Não convinha ser direta, e não consegui apurar nada que me revelasse o motivo do inesperado contato de Fulano. Tive certeza de que a pessoa achou a minha conversa estranha e fora de propósito. Paciência. Às vezes é melhor passar por maluquete do que por ardilosa.

Achei melhor não falar com mais ninguém, Afinal, o que eu estava fazendo, era fofocar sobre o caráter de Fulano. Deselegante, e o tiro poderia sair pela culatra.

Preparei o espírito para retornar o telefonema. Nada de reagir antes de ouvir, até o final, os argumentos dele, fossem quais fossem. Refletir, e contar até dez antes de responder. Mas, do que poderia tratar-se? Certamente algum tipo de proposta sobre a qual nós acabaríamos discordando e, com a habilidade social dele, era bem provável que eu acabasse numa sinuca de bico.

Fulano atendeu prontamente, agradável como sempre. Passadas as saudações de praxe, entrou logo no assunto que lhe interessava: “Da última vez que nos encontramos, você comentou que confia muito no seu clínico geral. Pode me dar o telefone dele? É para minha mãe”.

A culpa me invadiu imediatamente. É duro a gente descobrir que nem sempre é a mocinha do filme. Como atenuante, só posso repetir: eu sei de histórias…

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