Crônicas

Fala, Memória! Belchior Vive!

Humberto de Almeida
Escrito por Humberto de Almeida

Ao lembrar, agorinha, da troca de roupa e mudança para outra cidade do nosso “Bigode” cearense, esse que não cantava tanto quanto aquele outro que cantava, o Bievenido Granda do Perfume de gardênia, no mesmo ano em que perdemos também os ótimos Luiz Melodia e Vander Lee, a porteira da memória foi aberta.

Agora, com a fazenda de porteira aberta, casa destelhada e também de janelas abertas, lá fui eu de volta para os anos… 90 (?), na API, nossa ex-Associação Paraibana de Imprensa, hoje transformada em um self service ou coisa que o valha, encontrar-me com o excelente compositor de Alucinação e alucinações outras.

Foi lá, ainda passeando pelas “Coisas do Momento”, vizinho da “Letra Lúdica” do excelente Hildeberto Barbosa Filho, amigo de priscas eras, no jornal do mesmo nome (O Momento), fundado e dirigido pelo saudoso Jório Machado, editado na época pelos saudosos Oduvaldo Batista e Maria José Limeira, que me encontrei pela primeira – somente o encontraria uma segunda – vez como ele, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

Nesse dia, no auditório – era esse o nome? – da API, ele ainda curtindo o sucesso do seu “rapaz latino americano”, dava um relaxada coletiva. Estava presente. Assim por acaso. Tomando umas e outras naquele barzinho que respirava cultura, meio as piadas e a performance do “artista” Moura, então responsável pelo bar, subi para ver esse que foi o melhor compositor daquela safra de nordestina que invadiu o Sul maravilha, com as suas histórias “a palo seco”, onde desfilavam pavões misteriosos.

Hoje, passados os anos, confesso que não o achava tão diferente desse compositor cheio de ideias, filosofias e letras em que se transformou. O mais culto de sua geração. Sem dúvidas. Um compositor excelente. Autor de letras que quase não cabiam nas músicas que a sua cabeça em constante revolução fabricava.

Naquele dia, lembro-me bem, os estudantes estavam nas ruas. Não buscando mudar o mundo, mas contra o aumento no preço das passagens de ônibus. Nada mais comum.  Não havia um só cara-pintada. Todos de caras limpas. Negócio seguinte: foram ver o ídolo. E, aproveitando a oportunidade, pediram o seu apoio “à causa”. Lembro-me bem.

– O protesto tem sentido… Lutar. Lutar. Lutar. Sempre.  Mas, nesse momento, estou aqui como artista… –

– Como?!

Obtemperei.

Sei ainda que, naquele momento, o papo, o nosso papo nada tinha a ver com o fato. Ou teria?

– Não entendi. Então quer dizer que o Belchior se preocupa apenas em vender o seu produto, e acha tudo muito legal quando a estudantada sai para comprá-lo? É isso?! Agora quando essa mesma molecada precisa do seu apoio numa reivindicação justa e legal, ele diz “Nada a ver com isso eu tenho, pois sou um artista? Estás parecendo aquele outro que não tá nem aí para o que acontece aqui fora, porque o seu único desejo é estar Odara!

– E aí? O que você quer dizer com isso?

Agora foi a vez de ele Obtemperar.

– Sou um artista, Faço arte. Quer discutir arte comigo?!

Não queria. Não quis. Não discuti. Não havia necessidade. Sabia. Era um artista e muito bom, e fazia uma arte muito boa.  Mas o papo não era por ai.

Tentei ainda lhe dizer que seria deixar que os Estudantes brigassem por ele, enquanto ele – fiz questão de abusar do “ele” – ficava em casa “contando o seu metal.” Aquele mesmo que a Elis Regina, por livre e espontânea vontade, resolveu transformar (e cantar) em “vil metal”. Disse-lhe. Mas, entre mortos e feridos, encontramos motivos para novas canções.

Tive ainda a oportunidade de estar outra vez, mais uma vez e apenas uma, dessa vez em São Paulo, com o compositor da bela e datada “A Palo Seco”. Aquela famosa que fala no ano de 1973 (Chile). Ou teria sido no ano de 1976 (Soweto?)?

Fala, memória, invoco Nabokov! Bons tempos aqueles, hein?!

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Sobre o Autor

Humberto de Almeida

Humberto de Almeida

Jornalista e escritor paraibano. Somente um pouquinho mais tarde viria o 1berto de Almeida – nasceu, cresceu, viveu e, mesmo não morando mais em Jaguaribe, nele ainda vive.

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