Crônicas

Favali

Foto: Alex Timmermans)
Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

O Senhor Verme orgulhava-se de suas grandes fazendas e indústrias. Os javalis, além de hábeis aradores da terra e grandes produtores de esterco, eram operários resistentes, rápidos e obstinados em suas funções. Produziam toneladas de adubo e aravam quilômetros de terras com o mínimo de ração e descanso, o que deixava o Sr. Verme cada dia mais rico e feliz. O senhor, mesmo com uma grande margem de lucro, percebeu que se os javalis, além de produzirem a matéria prima, também fabricassem o fertilizante, seu lucro seria ainda maior, controlando assim toda a cadeia produtiva. Milhares de porcos foram demitidos e substituídos pelos javalis que acumularam as funções javalinescas e porqueiras. Trabalhavam até a morte por exaustão e seus corpos eram prontamente aproveitados na indústria de carne, couro e sabão.

Quando o sistema foi implantado, diante de um futuro irremediável, os javalis aceitaram seu fardo com resignada tristeza.  Ao menos tinham ração e um teto para se abrigarem durante a noite. O conformismo não atingiu Favali, um macho ruivo e robusto, o primeiro a abrir os olhos na ninhada. A situação o incomodava profundamente e, nos raros intervalos, conversava com seus colegas de trabalho sobre sua revolta. Tinha a fala prejudicada por desenvolver enormes presas, mas por onde passava arrastava em sua sombra um bando de seguidores. Depois de um exaustivo dia de trabalho na chuva, Favali parou à frente da manada e tomou a decisão de sua vida:

– Focês me conhefem, eu fou o Favali e frecisamos converfar. Quefidos famaradas, o que esfamos fafendo afui? For que frabalhamos fais for fenos fara foucos gafharem muifo? Famos lufar for nofos direifos à descanfo, féfias, condifões digfas de frabalho e particifafão nos lufros do Frenhor Ferme! Fifem fomigo e tofaremos o pofer.  Eu fou o Favali, me figam!

– Favali! Favali! Favali!

Seu problema na fala em nada prejudicou sua meteórica ascensão política. Os javalis viam em Favali um líder hábil e feroz, logo o animal certo para representá-los. Por outro lado, os vermes temiam a popularidade de Favali e abasteciam campanhas para manter seus negócios escusos intocáveis. Favali sabia que não poderia mexer com os vermes enquanto o povo mamífero não tivesse consciência da própria força. Foram anos de batalha, mas a evolução social dos javalis era escancarada. Passaram a frequentar lugares antes exclusivos aos vermes, como grandes florestas longínquas, dormitórios limpos e aquecidos, jardins com novos frutos e árvores nunca vistas. Vagas nas Escolas Especiais Verméticas foram disponibilizadas para javalis e todos os demais animais. Em pouco tempo tínhamos javalis cientistas, artistas e pequenos empreendedores. Os javalis assumiram sua identidade e todos viviam em franca evolução. Embora ainda houvesse muito a fazer, pois os Senhores Vermes ainda detinham o controle da produção, os javalis não mais temiam os vermes, agora sempre quietos.

Uma grande crise veio conturbar o complexo equilíbrio das relações animais. A seca dizimou plantações. Com a mesma intensidade que Favali era amado por seu povo, também era odiado pelos vermes que não se conformavam com a crescente perda na margem de lucro e ainda ter que conviver com os javalis em lugares públicos, antes privativos.  Assustados com o aumento da carga tributária, os vermes viram-se perdendo poder diante de uma insatisfação crescente das Vespas. O Sr. Verme criou uma federação para proteger os interesses deles, os verdadeiros proprietários daquele país. Eles que geravam emprego, eram donos das terras, dos imóveis e dos meios de comunicações. Acreditavam ter por direito natural e dever cívico controlar a inconsequência da ignorância dos mamíferos.

O Sr. Verme chegou muito bem vestido na Fiev (Federação das Industrias de Empreendedores Vérmicos).

– Dignos Senhores Empresários e Intelectuais, não podemos mais pagar o pato para sustentar esse bando de javali preguiçosos.  Somos poucos, mas nunca perdemos totalmente o poder. Precisamos extinguir o mal pela raiz e instituir a meritocracia como condição básica para adquirir direitos.

– Matem o Favali, assumimos o poder e tudo se resolve. Já fizemos isso antes. – disse o General Mosca em tom raivoso.

– Com todo respeito, General, hoje isso não funciona, precisamos fazer tudo dentro da lei que criamos. Os próprios javalis elegeram os fungos que aprovaram nossas leis. Eles não terão como reclamar. Primeiro derrubamos a pata direita de Favali, a porca Filma, na CF, Congregação dos Fungos, de forma legítima. Através da mídia das Vespas enfraquecemos a base do chiqueiro. Arrancamos as presas do Favali uma por uma, até que sua própria manada o destrua e devorem-se uns aos outros.  Os mais fracos nem perceberão o que está acontecendo. Conheço a natureza dos javalis, são crédulos ferozes, mas indolentes.

– Podemos sequestrá-lo durante a noite. Dizem que ele dorme pesado. – Opinou o animado presidente do Semanário Viral.

– Negativo. Foi taxativo o Sr. Verme –  tudo será feito às claras, com transmissão ao vivo pela Rede Vespasiana. Precisamos expor Favali como um líder morto. Quero investigação completa sobre a vida de todos os suínos que o rodeiam.  Ninguém consegue chegar a tamanho poder sem sujar as patas. Sabemos bem disso. Como representante dos javalis, ele será julgado por todos os atos de sua espécie.

Quando o dia amanheceu os javalis não podiam acreditar no que viam.  Suas casas e escolas fechadas e os jardins novamente cercados. Fazia muito frio quando levaram Favali acorrentado pela floresta. Seu algoz, um reles humano instrumento da máquina viral, levava seu prêmio pela captura numa mala sem o menor pudor.  Com a cabeça erguida Favali olhava para a frente. Sabia que a luta estava apenas começando.

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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