Crônicas

Fazendo algo

Fabricio Mohaupt
Escrito por Fabricio Mohaupt

É difícil entender o estado das coisas. Como deixamos chegar ao ponto em que estão e, mais importante ainda, como não tomamos atitude alguma? São impostos e mais impostos. Recordes de arrecadação atrás de recordes. E o que temos em contrapartida? Saúde? Debilitada! Educação? Deficiente! Estradas? Esburacadas! Segurança? Privada! A pública está na privada. Temos, sim, pardais e pardais espalhados por aí para o Estado arrecadar um pouquinho mais; tadinho! Quando cancelaram a CPMF, aumentaram diversos impostos. Agora, estão falando em criar um novo, igual à CPMF, mas com outro nome, para ajudar a saúde (creio que já vi este filme). Não escutei, todavia, coisa alguma sobre baixar os outros.

Nós temos é que pagar, além dos impostos e taxas, tudo aquilo que o Estado deveria dar-nos pelo que pagamos. Planos de saúde exorbitantes, colégios particulares, segurança (quem pode) e o conserto periódico do carro que se dana todo por causa dos buracos aonde quer que se vá. Fora as multas que, volta e meia, aparecem. Alguém consegue dirigir a quarenta quilômetros por hora se não for para passar por uma lombada eletrônica? É ou não é palhaçada? Já observou como ônibus, vans e kombis fazem o que querem e o guardinha parece que não vê? Experimente esquecer-se de colocar o cinto ou parar o carro onde não deve.

O pior de tudo é observar como os nossos políticos votam, inescrupulosamente, seus absurdos aumentos, de salário ou de benefícios, enquanto o sindicato vota dissídios de categoriaínfimos, de quatro por cento, para nosso pobre salário. Olha que, este ano, ainda foi “isso tudo”; no ano passado, o aumento foi de três e pouco por cento. Enquanto isso, a lata de leite em pó que custava quatro reais e trinta centavos há pouco menos de um ano, custa, hoje, seis reais e oitenta centavos, NA PROMOÇÃO! E a energia? E a gasolina? E o gás? E a água? E o aluguel? Melhor parar por aqui. Quero escrever ainda, chorando, não dá!

Nosso maior problema, hoje, chama-se falta de ideologia. Temos inúmeros partidos, mas nenhum com uma ideologia definida, pelo menos não na prática. Seus afiliados votam não porque acreditam no que estão votando, mas porque precisam de votos para os seus projetos. Uma verdadeira meinha política: eu voto a favor do seu se você votar a favor do meu; eu consigo livrá-lo da sua CPI se você livrar meu companheiro da dele; e por aí vai. Os mesmos sujeitos que acusam, por conta da moral e dos bons costumes, são aqueles que costuram acordos para livrar os acusados. E assim, vamos vivendo, escândalo após escândalo, pizza após pizza.

Aí, vem um amigo meu, que prezo muito, e diz: Há motivos para reclamar? Sim, mas também há motivos maiores para dar a sua participação e não ficar só se lamentando. Um País é construído com a participação de todos. Ter orgulho de si mesmo já é um bom começo. Se não há perspectivas, lute para que elas existam. Não seja o rato que morre afogado no balde de leite. Discurso bonito, cheio de filosofia. É muito bacana a idéia de lutar pelo que acha certo e de participar, mas, então, vem, com força, a pergunta: participar de quê? Daquelas passeatas no centro da cidade que protestam com sorrisinho no rosto? Das orações pedindo ajuda divina? Ser um político também? Candidate-se a um cargo público e não se prostitua e verá quando será eleito e poderá lutar por alguma coisa. Que tal abandonarmos nossos empregos e fazermos uma marcha até Brasília para exigir mudanças?

Dizem que um dos motivos da transferência da capital, do litoral para o interior do país, foi a Segurança Nacional: a capital no litoral estava vulnerável a ataques estrangeiros. Lembra de algum? Outro motivo seria afastar os governantes da concentração de atividades e das pressões populares. Qual motivo parece mais lógico? Lá, não há pressão popular, é tudo festa.

Você pode dizer que já fizemos o impeachment de um presidente. Pergunto: fizemos? Ou fomos levados a fazer? Não faço defesa do Presidente Collor, muito menos digo que ele era santo. O que argumento é: será que conseguiríamos oimpeachment se não houvesse interesses dos outros representantes da classe política? Temos visto inúmeros escândalos, tão grandes ou maiores que aquele, mas nada acontece. O quarto poder procura falar sobre o Caso Isabella ou sobre os travestis do Ronaldo. Nada de caras-pintadas como na época do “Fora Collor!”. Por quê?

Escutamos avisos de que devemos escolher bem, que temos que aprender a votar e que somos responsáveis pelos nossos representantes. Não quero esta culpa. Não sou eu quem escolhe as opções e, por mais que eu vote em branco ou nulo, não faz diferença. Não quando os milhões de miseráveis deste país votam por causa das migalhas que recebem: as bolsas e vales isso ou aquilo. Fica assim, então: os miseráveis, com suas bolsas-família, vale-leite, vale-refeição a um real, vale-remédio, pagode, cerveja e churrasquinho na comunidade e na laje, votando nos mesmos políticos de sempre, que, por sua vez, jogam as migalhas para os miseráveis e nos achatam com impostos e mais impostos para pagar as migalhas e as nababescas vidas que levam.

Qual a solução, então? Sinceramente, não vejo! Nenhuma que não venha de uma tomada de poder. Não, não estou falando de golpe militar, até porque, não creio que seja do interesse das forças armadas fazerem qualquer tipo de movimento neste sentido. Quando falo de tomada de poder, falo em tomada de poder civil. Meu problema é que não acredito que, do jeito que os congressistas amarraram o sistema, consigamos mudanças com “a força do voto”. Ou há uma tomada de poder ou pode esquecer. Não há perspectiva de mudança, nem de melhora. O problema é que as leis foram montadas de um jeito que torna impossível essa utopia.

Aquele mesmo amigo lembrou-me, então, da fábula que fala sobre o gato e os ratos, aquela em que um rato tem a brilhante idéia de colocarem um guizo no gato. Assim, todas as vezes que o gato se aproximasse, os ratos saberiam pelo toque do guizo posto no pescoço. Entretanto, a voz da discórdia tinha que aparecer e perguntar: “Quem vai colocar o guizo no gato?”. E ele continuou: Temos idéias, vontade e certeza do que queremos, mas quem será o nosso porta-voz diante das mazelas que presenciamos? Quem vai colocar o guizo no gato? É uma boa pergunta. Quem? Não sei. Mas, se conseguirmos fazer as pessoas começarem a perguntar, já será um grande começo!

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Sobre o Autor

Fabricio Mohaupt

Fabricio Mohaupt

Rato de bancas de jornal, livrarias, sebos e obscuras salas de cinema. Escapista apaixonado por HQ's, livros, filmes, séries e música. Pai, marido apaixonado, carioca, torcedor do Flamengo, Maçom, Umbandista, cronista amador, roteirista aprendiz, metido a colunista, poeteiro sem métrica e de pouca rima, crítico descompromissado, futuro romancista, botequeiro (favor não confundir as sílabas) e um feliz estudante e entusiasta da vida e de psicologia, que nada sabe, mas muito quer aprender.

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