Crônicas

Feira

Claudia G. R. Valle
Escrito por Claudia G. R. Valle

Quem é adepto de uma alimentação saudável, e não mora na roça, sabe que não há verdura, fruta ou legume que atravesse mais de dez dias em bom estado. A maioria dos alimentos perecíveis não dura nem uma semana e, mesmo que durasse, onde iríamos guardar tanta coisa? O estoque precisa ser renovado constantemente.

Qualquer responsável pelo abastecimento doméstico sabe que é uma batalha diária. A forma mais divertida de travar essa guerra, se a palavra diversão for aplicável ao caso, é frequentar a feira livre do bairro. Se você mora perto de zonas turísticas, prepare-se para encontrar por lá estrangeiros tirando fotos, quer das mercadorias, quer das pessoas. Faz sentido: é interessante conhecer os produtos locais e a alimentação é um traço cultural importante. Para um observador de fora são encontros insólitos: um feirante abraçando uma norueguesa, sem nenhum falar a língua do outro, ambos arranhando algumas palavras soltas em inglês ou português.

Prepare-se também para ser agradavelmente interceptado para provar este ou aquele produto. Em geral frutas ou doces, porque é difícil demonstrar como as batatas estão maravilhosas oferecendo uma amostra crua ao freguês. Claro que as frutas oferecidas não foram lavadas antes, mas você é brasileiro, tem alguns privilégios em relação a anticorpos. Aproveite, e deixe que os turistas se virem.

Melhor ir à feira sem pressa: antes de comprar é prudente fazer algum tipo de pesquisa de preços, que muitas vezes nem estão expostos nas devidas plaquinhas. Na maioria dos casos, os feirantes trabalham em pares, e quando você pergunta o preço do tomate, um dispara para outro:

– Fulano, qual é o preço do tomate?

São dez horas da manhã, o cara está ali desde as cinco ou seis, e ainda não aprendeu o preço do tomate. Como não existe (ainda) lei obrigando a contratar deficientes mentais para trabalhar na feira, interprete a pergunta como:

– Para este otário aqui, quanto vai custar o quilo do tomate?

Fuja desse ultraje: comece a feira dando uma volta para comparar os preços e a qualidade dos produtos do dia. Todos os feirantes juram que suas mercadorias tem a melhor relação entre preço e qualidade, mas você tem a força. O difícil é ser mais esperto do que eles.

Se conseguir coragem e disposição para ir à feira com chuva, terá a chance de fazer bons negócios, embora o dinheiro economizado talvez seja insuficiente para o remédio da gripe. Quando chove os toldos das barracas acumulam água, que é drenada pelo método do cabo de vassoura (só quem já foi à feira em dia chuvoso saberá do que se trata), o que vale uma ducha instantânea nos passantes. Então, mesmo se o aguaceiro tiver dado uma trégua, é fundamental manter o guarda-chuva aberto.

As balanças são outro problema. Os feirantes as usam com tal destreza e velocidade que, se você não for rápido, não consegue ver o preço que ele cantou para você. É igual a um duelo no velho oeste. A pessoa tem frações de segundo para conferir o peso, o preço digitado por quilo e ainda observar se a mão não pesou na hora. Nada de acanhamento: insista em uma segunda pesagem, desta vez em câmera lenta. Gera protestos, olhares reprovadores e, às vezes, correções. Lembre-se: o consumidor tem a força.

Quem vai à feira com assiduidade pode minimizar estes problemas arranjando seus fregueses fixos, quer dizer, seus vendedores fixos (uma coisa curiosa no vocabulário feirense é que você é freguês, quer esteja vendendo ou comprando). Aí conquista algumas regalias, como o direito de ser menos enganado e a entrega em casa. Mas nem pense em relaxar a vigilância!

O frequentador da feira também é um caso à parte, merece um estudo sociológico. Chega a uma barraca e pergunta:

– O tomate está bom?

O que espera ouvir de volta, uma resposta honesta tipo: “Mais ou menos, é sobra da feira de ontem, não vai durar nada”?

Os produtos são os mais variados: não pode faltar aipim cozido, ervas, pimentas e temperos de toda a sorte, caldo de cana e pastel, biscoitos e doces em sacos enormes, alguns melhores que os de muita padaria chique. Um festival de cores, cheiros e sabores.

Os moradores das ruas de feira se queixam, com razão, da bagunça e do cheiro que elas deixam no final. Como consolo, vale lembrar que a Comlurb entra em ação assim tudo é desmontado, aí pela uma hora da tarde, e lava o lugar com jatos de água, regalia de poucos locais no Rio, já que a lavagem da maioria depende da chuva mesmo. Que pode não ter dia certo, mas não falha, como os cariocas bem sabem…

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Sobre o Autor

Claudia G. R. Valle

Claudia G. R. Valle

De Algarve, mas mora no Rio de Janeiro. Já foi professora e matemática. Em suas crônicas, aborda temas leves e bem humoradas, e do cotidiano moderno. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o riso também é capaz de provocar reflexões profundas.

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