Crônicas

Felicidade é…

Bia Mies
Escrito por Bia Mies

Entre as manchetes e conteúdos de jornais, entre as atrocidades que presenciamos ou nos chegam por diferentes fontes todos os dias, venho me perguntando o que é, como é e para quem é a tal da felicidade. Como explicá-la, se essa – tal qual nos canta Jeneci – é uma simples questão de ser? No agito, a calmaria; no burburinho urbano, um blues. No vazio dos dias, inventividade. Vida. Questão de ser.

Vejo meninos e meninas todos os dias, pedindo um trocado, correndo pelas calçadas sem chinelo, vendendo coisas no metrô. Dá pena. Dá muita pena. Quero sempre ajudar, são crianças, “deveriam estar brincando ou na escola” – diz um passageiro, “tô sem nada“, – sentencia um outro. Numa dessas tardes de ar condicionado muito mais frio do que deveria ser – estamos em um Rio de Janeiro outonal -, as pessoas se encolhiam entre seus acentos quando um rapaz rechonchudinho de uns 9 anos adentrou o recinto.

Bom dia, meus senhores e senhoras. Desculpa incomodar a sua viagem, mas trago aqui um artefato muito interessante, deixem-me apresentá-lo a vocês…

O estilo simples e direto do rapaz, surpreendentemente eficaz, descrevia um objeto que nada mais era do que um fio de USB para celular que esticava e enrolava.

…entrada para Samsung, LG, Motorola, Alcatel… – a lista era admiravelmente grande para sair da boca de um rapazote como se fosse explicada por um técnico do meio. Ele prendeu a atenção de todos. As mulheres sorriam e entrevia-se cochichos “que coisa fofa!”, “olhem para isso!”, enquanto os homens o observavam, com caras incrédulas, procuravam um olhar qualquer e iniciavam um tête-à-tête fugaz “O moleque leva jeito!”, “Já nasceu empresário!”, “olha a marra!”, e assim sucessivamente pelos corredores do vagão. Talvez por causa da preconceituosa ideia geral de falta de experiência aliada à pouca idade e ao gracejo nato, o menino sabia como fazer suas palavras evoluírem e o interesse dos passageiros se manteve constante. Uma parada na próxima estação, o menino interrompe a oratória. Coloca a cabeça para fora do trem, dá uma olhada meticulosa e rápida para os dois lados, retorna ao seu lugar de segundos atrás e, antes que as portas se fechassem novamente, lá estava ele, na sua tentativa de venda, como se nada tivesse acontecido.

Não vendeu muito, mas via-se que estava contente. Não muito depois de saltar na minha estação de destino e subir para a cidade, passei por uma travessa entre dois prédios, coberta, em cujo interior as luzes estão sempre acesas, e na qual, geralmente, sem tetos tomam uma parte por morada. “Existem mais casas vazias do que gente sem moradia“, é o convite do espaço, grafitado em uma das paredes, aos moradores de rua. Quando venta, a “casa” torna-se bem fria. É comum ver pessoas deitadas umas perto das outras, dividindo cobertores ou tentativas de, cachorros e alguns objetos pessoais. Neste dia, porém, o que vi foi um rapaz – talvez com seus 20 e poucos anos – , dançando com uma vassoura ao sabor da canção que saia do radinho preto de pilha, apoiado no último degrau da escada. Ele varria a sua casa, arrumava o seu cantinho e parecia feliz.

Então pensei, essa tal felicidade é mesmo só questão de ser.

É turva; misto de verde-água com azul cobalto e cinza, mais para branco. Envolve a todos, na calada da noite. Oito. Número de cômodos despertos  frente aos olhos de quem observa. Olha para onde, o que vê? Enxerga além…

No momento, o movimento único provocado por dois passantes. Não há vento. Um som vem chegando tímido, ainda longe. Soluçam. Uma moto cruza a via sem pressa, e motorista e carona conversam sem pressa, à velocidade mínima.

Felicidade é liberdade de si mesmo. São desamarras. Na calada da noite, a poética penumbra. No passar do tempo, o despertador sem corda.  Para a boca ressequida, água. Aos olhos, o aconchego de uma cama limpa.

Ao corpo, um novo amanhã.

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Sobre o Autor

Bia Mies

Bia Mies

Carioca, nascida em 1988, de origens itaiana-suíça-portuguesa, cronista, artista, arquiteta, atriz, urbanista; do mundo...
Esta autora escreve aos Domingos.

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