Crônicas

Foi nada, seu juiz!

Catarina Cunha
Escrito por Catarina Cunha

– Mô? Viu que é bandeirinha mulher? A gente não tem sorte com mulher na arbitragem. Sei que você pode pensar que é machismo, não é não, é estatística. Silêncio no tribunal! Começou.  Até que enfim um técnico ousado partindo pro ataque. Vamutrucidááá!  Chuviscando no gramado, esse tapete esburacado vai virar um sabão. Tomara que aqui não chova forte, se não a gente perde o sinal da tevê. O Pitomba pegou a bola. Corre! Passa! Ladrão! Ladrão! Pronto perdeu. Correr atrás do ônibus pra tentar a peneira você sabia, agora que tá sentado na grana fica de frescuragem.  Recupera, isso! Mô, tá vendo o babaca se achando mágico? Não dribla, cara, me ouve que tu não é Garrincha, passa essa bola. Assim não que estoura a virilha e desfalca o time. Não, não, não, por aí não. Ai, já que tá aí entra logo na área que não é areia movediça. Rápido, porca miséria! Não vai dar.  Vai, se joga na área que tu não tem perna pra isso. Isso! Cai, estrebucha, treme, chora, peste, que o juiz tá olhando! Penalti, seu juiz! Machado covarde no joelho!  Hurrrúúú! Bota o Micro Craque pra bater. Agora não tem pra ninguém. Concentra e mete um torpedo que o goleiro tem mão de alface. Caraio, Micro Craque,  tá mandando bola pra mãe na arquibancada? Assim não dá, não se pode nem elogiar que o cara vai lá e faz uma bosta dessa, né Mô?  Bora lá, bora lá, desanima não ganhando de zero a zero. Bora recuperar essa bola. Assim não, olha o meia fungando no teu cangote. Pronto, roubou. Eu avisei, não avisei,  Mô? Então. Não deixa ele lançar. Quebra ele! Puts, que canelada, pegou muito mal. Foi nada, seu juiz, manda levantar que esse sangue é massa de tomate.  Cartão amarelo? Tomanocú, nem encostou no cara, a Cinderela tá caindo de madura. Tudo bem, segura a onda, não reclama do amarelo que podia ser pior. Putaquipariu, dedo na cara do juiz vai dar merda. Xinga mais pra ser expulso, ferra logo com o jogo todo pra eu queimar esta camisa com teu nome. Não falei? Vai pro chuveiro mais cedo. Bate uma lá com a única cabeça que você pensa, idiota. Vai perder e cair pra segundona. Então vamu lá com dez na garra! Tô ouvindo o grito da galera do delei. Vai, vai, por aí não, agora, isso, vai garoto, passa, passa, chuta, chuta, porraaaaa,  gol, gol, gooool! Vêm ver o riplei, Mô! Go-go-go-laaaaço! Como assim impedido? Não falei que a gente sempre se fode com mulher bandeirinha? Piranha. Absurdo, absurdo.  Pô, a gente já tá no desfalque e ainda tem de enfrentar mais o trio de arbitragem, é sacanagem. Tem que prender esse juiz com a cueca cheia de verdinha. Nada é fácil pra gente, né Mô? Olha lá, que é isso? Não deixa passar zagueirão, dá uma cusparada na cara, pescoçada, quebra, quebra! Merda. Não falei? Não fez levou. Agora terminar o primeiro tempo perdendo, são quinze minutos de zoação.  Também com esse técnico de merda. Era pra mexer no meio de campo e fortalecer a zaga. Eu falo, mas ninguém me ouve e insiste em botar atacante vesgo.

Boralá correr atrás do prejuízo. Vamú virá! Que é isso? Tomaram chá de camomila no vestiário? Reação, reação! Por aí, passa pro Palito, cruza pra direita que o cara tá sozinho implorando. Esquerda, esquerda, pro Babá não que tá jogando machucado. Não chuta, isso cruza, chuta, não, não chuta, isso, chuta é gol, gol, gooool!!! Cadê a bandeirinha piranha? Tá do outro lado do campo, ah, bom, é golgolgol golaço! Não falei? Não falei? O Babá é gênio. Borá virá! Faltam cinco minutos, cabe mais um. Arruma, arruma. Assim, bonito. Vão ficar encerando o meio do campo? Assim não dá, olha o relógio, porra! O juiz comprado só deu três de acréscimo. Seria no mínimo dez com aquela cena da bailarina com canela de vidro. Puts, só bola nas costas. Apontou o centro do campo. O empate é uma realidade estratégica, lá na frente recupera. Também roubando até eu empatava essa merda.  Né Mô?

— Falou comigo, Zé?

— Na-não, nada não.

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Sobre o Autor

Catarina Cunha

Catarina Cunha

Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no "1º Concurso Crônicas Cariocas", promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008.

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